Com Brasil à deriva, Bolsonaro contribui para causar uma grave crise institucional

Charge do Amarildo (Arquivo do Google)

Marcelo Copelli

Ao longo de toda a sua vida política, o atual presidente, Jair Bolsonaro, sempre deixou claro, através de inúmeras ações e embates, que, diante da ausência do diálogo e do respaldo de sólidos projetos, enveredaria pela propagação da desinformação, das teorias conspiratórias e, sobretudo, dos violentos ataques aos que ousassem discordar de suas narrativas, por vezes alucinadas.

O que explicitamente poderia compor contra a sua pretensa caminhada, encontrou simpatia em uma massa que cresceu exponencialmente ao longo dos últimos anos por diversos motivos, seja por admiração, similaridade de pensamentos ou simplesmente raiva da urna eletrônica; razões pelas quais, em 2018, seus eleitores garantiram a cadeira presidencial para o Forrest Gump tupiniquim.

PACOTE COMBO – Com Bolsonaro, o país rubricou por quatro anos o mais caro pacote combo dos planos ofertados por ocasião da eleição, já que a reboque, os brasileiros ganharam não somente um contador de histórias, mas também três figurantes de mandatários – os filhos 01, 02 e 03 – com direito a vergonhosos pitacos na condução do país, gerando, por vezes, estrondosos ruídos internacionais, além de um vasto leque de questionáveis ministros e secretários que seguem à risca a premissa do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Assim, Bolsonaro se faz onipresente em todos os ministérios e secretarias. Espirrou fora do tom, está fora. Sem conversa ou direito à explicação. E que passe a boiada, adiante com o berrante, sob a batuta do imperativo monólogo presidencial.

Desde quando ainda cochilava pelas Casas Legislativas, e lá se foram três décadas, Jair sustentou o seu vazio discurso através de pautas igualmente descabidas, a exemplo da luta contra a invasão comunista, da urgência em disponibilizar vias legais para que o cidadão “de família” andasse armado ou ainda da sumária exclusão das falsas cartilhas escolares, entre tantas outras bandeiras fugazes e duvidosas.

NA CONTRAMÃO – Ao longo de dois anos de mandato no Planalto, o atual presidente remou contra a maré quase que diariamente, contradizendo recomendações adotadas por todo o mundo, ignorando a realidade pandêmica, chutando estatísticas, expondo a população à própria sorte, promovendo desencontros e rindo da promoção de conflitos.

Entoando o seu samba de uma nota só, Bolsonaro foi capaz de mentir reiteradas vezes para todo o país, negando os seus próprios discursos anteriores, inflamando os seus currais eleitorais, quebrando a bússola do bom senso e deixando o país definitivamente sem rumo.

SEM PLANEJAMENTO – Não há seriedade ou planejamento estratégico. As promessas de mudanças ficaram restritas à campanha eleitoral e, ainda que consiga chegar até o fim de sua gestão, Bolsonaro certamente não conseguirá provar a que veio. E não por culpa da crescente e insatisfeita oposição, pelos percalços do caminho ou ainda em virtude da crise sanitária, mas pela sua intrínseca incapacidade de gerir um condomínio, quiçá um país de dimensão continental.

Parafraseando o cineasta Luis Buñuel, “as oportunidades não abundam, e raramente as encontramos uma segunda vez”. E, por maior que seja a resiliência exigida da sociedade, o presidente ultrapassou o seu limite no cartão corporativo da boa vontade e já deu reiteradas oportunidades para ser cancelado definitivamente do cenário político. Só falta o providencial carimbo em seu passaporte para uma viagem apenas de ida.

Por enquanto, o Brasil segue desgovernado e à deriva. Os poucos coletes que ainda restavam, Bolsonaro fez questão de jogar ao mar.

Acuado pela própria incompetência, Jair Bolsonaro sobrevive de blefes e mentiras

Charge do Duke (domtotal.com.br)

Marcelo Copelli

Diante da pressão que recai sobre o governo federal, Bolsonaro, mais uma vez, apelou para a ameaça travestida pelo blefe da cínica ironia, e declarou que “quem decide se um povo vai viver numa democracia ou numa ditadura são as suas Forças Armadas”.

O presidente se esforça, com as suas ralas cortinas de fumaça e o seu incipiente discurso, para desviar a atenção do fracasso no qual está atolado, protagonizando uma gestão cujo semblante se reconhece, até mesmo internacionalmente, pela absoluta falta de competência que traça os seus caminhos.

NEGACIONISMO – Descendo a ladeira, Bolsonaro, o defensor da cloroquina, fez questão de configurar-se como um dos poucos e infelizes exemplos em todo o mundo que, durante a crise sanitária, optou não somente pelo negacionismo, mas, sobretudo, pelo deboche e pelo descaso, lavando as mãos e remando contra a imperativa e cruel realidade instaurada pela falta de estrutura da saúde pública, que sempre demandou urgência, rubricada pelas milhares de mortes e pelas covas abertas.

O presidente nunca se responsabilizou por qualquer desventura. Sempre teve o nome dos “culpados” na ponta da língua, acusando e descartando ministros “desalinhados”, colocando na conta do Supremo e do Congresso, ou mesmo jogando no colo da imprensa. 

EVOLUÇÃO DA “GRIPEZINHA” – Segundo Bolsonaro, a pandemia era uma “gripezinha”, que  passou a ser uma invenção da oposição para derrubá-lo e depois se tornou uma conspiração comunista internacional que matou milhares de pessoas somente para atingi-lo, refletindo a grandeza que julga possuir o nosso esboço de Donald Trump tupiniquim.

Fica a dúvida se as narrativas presidenciais são frutos de sua criatividade, se representam um caso patológico, merecedor de estudo ou internação, ou ainda se simplesmente refletem a insensibilidade do falso Messias sobre as demandas da população.

REALIDADES OPOSTAS – Assistir ao mandatário comemorar a possibilidade de estudos de novas vacinas serem reprovados, só para que tivesse razão sobre o seu opositor, representa o quão distante está a dura realidade da sociedade que agoniza e a fatídica fantasia desenhada pela mente conturbada do gestor que não aceita ser contrariado.

Ainda sem entrar no mérito das acusações envolvendo o restante do seu clã, com filhos que também figuram na política, e que acreditam cegamente terem sido simultaneamente eleitos presidentes da República coadjuvantes em 2018, não há muito o que esperar de Bolsonaro, ao menos em questão de progresso e desenvolvimento do País.

Isso porque durante as décadas nas quais dormitou no Legislativo, deu robustos sinais de sua falta de comprometimento e irresponsabilidade em sucessivos mandatos. Afinal, qual a magnitude de seus projetos ao longo de todos os anos em que foi deputado? Qual a causa efetivamente defendida em prol de uma sociedade mais justa?

PROMESSAS – Sua conduta se resumiu às promessas de armar a população, ao invés de reforçar uma segurança pública que já é paga pelo cidadão-eleitor, destratar segmentos que até hoje julga como sendo minorias, e a promoção da cultura do ódio e da desinformação. O resto, foi confeito.

Quando Bolsonaro, diante de seu cercadinho de apoiadores, conta suas anedotas e faz as esdrúxulas ameaças, respaldadas por uma perigosa necropolítica, não só despreza a importância do cargo para o qual foi eleito, mas também esfrega na cara sofrida do Brasil que o ruim pode ainda piorar. E muito. Movidos pela cólera insubmissa que nos aflige, fica a pergunta, parafraseado o rei Juan Carlos, afinal, “por que não te calas ?”

Ainda restam dois anos de gestão, salvo o caso de uma providencial abreviação impeditiva. Mas fica uma certeza; se a população brasileira tinha que passar por provações, com Bolsonaro entrou na fila pelo menos umas três vezes. Está pago e ainda ficará crédito na conta. 

Brasil tem déficit de 4,4 mil juízes, sem contar com os novos “juízes de garantias”…

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Charge reproduzida do Arquivo Google

José Marques e Flávia Faria
Folha

Um a cada cinco cargos de juiz no Brasil está vago, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). De acordo com o órgão, em 2018 havia cerca de 18 mil magistrados em atividade e cerca de 4.400 postos desocupados. A maioria (69%) está lotada na Justiça estadual, ramo que tem 22% de vacância. Na Justiça Federal, que reúne pouco mais de 1.900 juízes, o índice é de 24%.

A falta de magistrados é um dos entraves para a implementação da figura do juiz das garantias pelo país. Em 20% das comarcas, há apenas um magistrado trabalhando.

EM ALTA – Apesar dos postos vagos, o número de juízes no Brasil cresceu 14% desde 2009. As despesas do Judiciário, por outro lado, tiveram queda. Foram gastos cerca de R$ 109,1 bilhões (valor corrigido pela inflação) em 2009. Em 2018, a despesa caiu para R$ 93,7 bilhões.

Naquele ano, chegaram à Justiça estadual, em média, 1.668 novos processos para cada magistrado. Na Justiça Federal, onde a maior parte dos casos da Lava Jato são processados, o acúmulo de trabalho é maior: foram 2.090.

Nos dois ramos do Judiciário, acumulavam-se mais de 70 milhões de processos sem solução em 2018.

ENGARRAFAMENTO – Na Federal, a taxa de congestionamento, que mede o percentual de casos que permaneceram pendentes em relação ao que tramitou, era de 86%. O índice cresce desde 2012, quando registrou 78%.

Na Justiça estadual, a situação é mais grave no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, com taxa de 82,1%. O de Roraima, por sua vez, teve a menor do país: 53,5%.

Em média, um processo criminal leva três anos e dez meses para chegar à primeira sentença na Justiça estadual. No Rio Grande do Sul, o tempo chega a oito anos. No Distrito Federal, por sua vez, a média é de 11 meses.

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NOTA DA  REDAÇÃO DO BLOG
– Vamos falar sério e claramente. Só existe congestionamento de processos porque os juízes trabalham pouco. Apesar de receberem auxílio-refeição, só chegam ao Fórum no início da tarde. Jamais trabalham nos feriados enforcados. Aliás, somente trabalham quando bem entendem e têm direito a 60 dias de férias por ano. Se os juízes tivessem de dar duro como os demais trabalhadores brasileiros, já teriam dado jeito no país. (C.N.)-

A magia e a emoção de uma final e a percepção de um atípico torcedor de binóculos

A mão invisível capaz de sacudir milhares ao mesmo tempo

Marcelo Copelli

Devoção, encantamento, paixão sem limites. Um mergulho coletivo, onde “ninguém larga a mão de ninguém”, onde o fôlego é compartilhado, capaz de unir desconhecidos que se reconhecem e se tornam amigos fraternos pelo olhar, pela camisa, pelo abraço na hora do gol ou pelo choro insubmisso após uma derrota.

É assim, como telespectador que de longe observa, que vejo o amor pelo futebol. Podendo ser considerado um carioca “atípico”, indiferente ao andamento das tabelas estaduais ou nacionais do esporte, confesso que tento sentir, com uma certa pitada de admiração, a ligação quase que umbilical de milhares de torcedores com seus times. Não há questão, naquele momento, que interfira na explosão de sentimentos, sobretudo em uma decisão mundial.
 
“A MISSÃO” – E é dessa forma que começo a explicar, ainda sem jeito, o que se segue. Hoje pela manhã, recebi a sugestão do amigo CN, pedindo que eu escrevesse sobre o jogo que, mais uma vez, pararia o Rio de Janeiro e, certamente, vários outros pontos do Brasil. Independentemente de torcer ou não pelo time em campo, cada um se sente representado, ainda que não confesse, acredito.
 
Mas a minha questão não era escrever sobre o jogo em si, opinar sobre as estratégias ou técnicas. Ou melhor, era. E respondi ao amigo que tentaria, mesmo nesse caso me considerando um mero “alienígena” que, de binóculos, apenas admira a alegria que pinta as ruas da cidade, se comove com os gritos de todas as idades que ecoam pelos quatro cantos do país e tenta entender a motivação de tanta paixão. Mas, que em sua intimidade, se reserva à solidão da percepção.
 
PLACAR DESCONHECIDO – Em tempo, escrevo essas linhas antes da partida. Achei melhor não saber o resultado, pois, independentemente do placar, busquei optar por um outro caminho e escrever sem o vício apaixonado ou possíveis interferências.
 
Aos mais surpresos diante da minha afinidade esportiva, digo que já torci pelo América do Rio. Não brigava com ninguém e, de certa forma, era querido por todos. Alguém não gosta do América ? Não tem como. É o segundo time de todo carioca. Por afeição ou pena mesmo.
 
COMOÇÃO – Mas, voltando à minha auto-exclusão das rodas de conversas futebolísticas, as finais importantes, que envolvem uma grande comoção, sempre me chamaram a atenção. Talvez mais pela necessidade de entendimento sobre o sentimento que se desdobra coletivamente e de forma impressionante, do que pelo próprio desfecho, no meu caso.
 
Tanto a alegria quanto a tristeza motivadas por uma final nos espantam. Como se fosse uma mão invisível capaz de sacudir milhares de pessoas ao mesmo tempo e uni-las sob um só manto ou acolhê-las em um só pranto. E na preparação para uma final, vale tudo. O importante é se sentir parte. É ter motivo para comemorar e enfim dizer “é do Brasil !”.
 
ESPETÁCULO – Para uns é um momento de fuga do cotidiano tão fatigado. Para outros, um breve, porém marcante, momento em que as diferenças são deixadas para trás.

Busquei explicações para assimilar tanta gana pela questão, mas percebi, ao longo dos anos, que é simples magia. E para isso não há explicação. Mesmo de fora, reconheço, o espetáculo não pode e não deve parar. Essa emoção, ninguém é capaz de tirar.

Tendência de “arquivamento” de inquérito por Segóvia foi um tiro pela culatra

Entrevista foi um recado ao delegado Cleyber Malta

Marcelo Copelli

As declarações feitas pelo diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, na última sexta-feira, dia 9, em entrevista à agência de notícias Reuters, sobre a possível recomendação pelo arquivamento do inquérito dos portos contra Temer por falta de provas, desencadeou uma enorme crise dentro da corporação e acabou com o aparente sossego do feriado carnavalesco do presidente na Restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro.

INTIMAÇÃO – Após a desastrosa repercussão, delegados do grupo de inquéritos da Lava Jato reagiram imediatamente, uma vez que ninguém da corporação havia sido consultado ou apoiado a insana manifestação de Segóvia. Além disso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso o intimou a explicar as declarações que ameaçaram o delegado responsável pelo caso, “que deve ter autonomia para desenvolver o seu trabalho com isenção e livre de pressões”.

Segovia logo tentou consertar o que já estava quebrado. Enviou mensagem para colegas do Sindicato de Delegados da PF do Distrito Federal, negou o tom das declarações, a interferência nas investigações e se desculpou admitindo apenas que deu uma “opinião pessoal” e teve uma “conclusão apressada” sobre o inquérito no qual afirmou não existirem indícios de que a Rodrimar tenha sido beneficiada pelo decreto de Temer.

Não é a primeira vez que Segovia explicita seu papel de frágil defensor de Temer. No fim do ano passado, questionou o ritmo da investigação conduzida pela Procuradoria Geral da República contra o emedebista, declarando que “uma única mala talvez não desse toda a materialidade para apontar se houve ou não crime, e quais os partícipes“, ao se referir ao episódio do “deputado da mala”, em que Rocha Loures foi flagrado recebendo R$ 500 mil que seriam de propina da JBS. E o diretor da PF acrescentou que os resultados da investigação seriam um “ponto de interrogação” no imaginário dos brasileiros.

INDICAÇÃO POLÍTICA – A escolha de Segovia para a Diretoria da PF foi ancorada pela articulação dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, do ex-presidente José Sarney e do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Augusto Nardes, com a rubrica final de Temer, mesmo sem ser o nome preferido pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim, a quem a Polícia Federal está subordinada. 

Pouco antes de sua posse, Fernando Segovia já registrava visitas ao presidente, mesmo fora da agenda oficial. Após assumir o cargo, continuou a encontrá-lo, inclusive na semana em que Temer entregaria as 50 respostas à Polícia Federal sobre o inquérito dos portos. Tanto o Planalto, quanto Segovia negaram que o assunto do encontro tenha sido esse, mas quem acredita?

PEDRA NO SAPATO – Assim que Segovia assumiu a direção-geral da PF, o foco em Cleyber Malta Lopes, que conduz o inquérito em que Temer é investigado, aumentou. O delegado sempre foi uma das pedras no sapato presidencial e já era desafeto antigo do diretor da PF desde a época em que presidiu um inquérito envolvendo a família Sarney, quando Segoviaera superintendente no Maranhão.

Não foi por acaso que Cleyber Malta teve o nome citado na entrevista dada à Reuters, na qual se destacou que uma investigação interna poderia ser aberta para apurar a conduta do delegado pelos questionamentos enviados a Temer no caso. O discurso inclinado, além de ameaçador, deixa clara a relação próxima e dependente entre Segovia e Michel Temer.

PELA CULATRA – A declaração que provocou essa hecatombe política acabou por se tornar um tiro no pé, dele próprio e, por consequência, do já tão impopular Temer. Com a atrapalhada entrevista, intencionava-se mandar um “sutil” recado público e direto para Cleyber Malta, na tentativa de contê-lo e, em seguida, extirpá-lo das preocupações presidenciais, provocando sua saída das investigações. A ingênua estratégia, entretanto, não durou. Provocou descontentamentos dentro da corporação e questionamentos do Ministério Público e do Supremo.

As previsões do diretor sobre um inquérito em curso, conduzido por outra pessoa, suas garantias e perigosas ligações agora exigirão mudanças nos próximos passos do governo para contornar a questão dos portos que foi reaquecida.  

Se a intenção de Segovia era matar no peito o inquérito da Rodrimar, agora terá que amargar o gol contra marcado. E Temer, que já não sabe mais o que fazer para evitar tantos desgastes, continuará na mira das investigações, buscando desesperadamente uma solução para manter o foro privilegiado e ficar a salvo da Justiça.