Uma Cantata para saudar a alegria do povo do interior, na visão de Socorro Lira

Deixa Viver - por Socorro Lira - YouTube

Socorro Lira, uma das maiores cantoras do Nordeste

Paulo Peres
Poemas & Canções

A psicóloga, cantora e compositora paraibana Maria do Socorro Pereira, conhecida como Socorro Lira, expressa na letra de “Cantata” a saudade das terras do sertão, onde tudo se transforma em música e em poesia, seja na alegria da chuva, seja na tristeza da seca. A própria Socorro Lira gravou “Cantata” no CD Cantigas, em 2001, produção independente.

CANTATA
Socorro Lira

Chega o vento e traz a saudade
Vem soprando do coração
Vem a noite enluarada
Geme e cala o violão
Passa o tempo lá na serra
Lá nas terras do sertão
Todo tempo é primavera
Toda vida uma canção
Corre livre pelos campos
Meninada, vem, me diz
De onde vem o teu encanto
O que te faz tão feliz?
Quando a chuva vem, desperta
Verde, vida, paz e pão
Se é verão, tudo ali é seca
Seca o peito, racha o chão
Cada pedra do caminho
Do meu sonho é testemunha
Cada flor e cada espinho
Era um verso que eu compunha
Correm as águas no riacho
Vão fazendo a cantilena
É meu canto, é minha alma
É louvor que eu fiz pra ela
Rouxinol cantou pra mim
Me ensinou também cantar
Toda tarde ao pôr-do-sol
À criação vem celebrar
Tudo agora é nostalgia
Se eu chorar será de dor
Tudo é verso e poesia
É cantata do amor

Veja como Ferreira Gular conseguia narrar um gol de uma forma altamente poética

A arte existe porque a vida não basta. Ferreira GullarPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico de arte, teatrólogo, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta maranhense José Ribamar Ferreira (1930-2016), no poema “O Gol”, narra a trajetória da bola, a arte do jogador e a emoção do torcedor.

O GOL
Ferreira Gullar

A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a pára
no ar
depois
com o joelho
a dispõe a meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.

“Jura pela imagem da Santa Cruz do Redentor, pra ter valor a tua jura”, cantava Sinhô

Sinhô (18 de Agosto de 1888) | Artista | Filmow

Sinhô, um dos grandes pioneiros do samba, era pianista

Paulo Peres
Poemas & Canções

O músico e compositor carioca José Barbosa da Silva, conhecido como Sinhô (1888-1930), é considerado um dos mais talentosos compositores de samba, para muitos o maior da primeira fase do samba carioca. Com letra romântica e queixosa, o samba ”Jura” pede uma promessa de amor. Ao que parece, Sinhô escreveu-a num momento de dor de cotovelo, depois de ter visto a mulher que amava nos braços de um outro  pretendente. O samba foi gravado, originalmente, por Mário Reis, em 1928, pela Odeon.

JURA
Sinhô

Jura, jura, jura
pelo Senhor
Jura pela imagem
da Santa Cruz do Redentor
pra ter valor a tua jura
jura, jura
de coração
para que um dia
eu possa dar-te o amor
sem mais pensar na ilusão

Daí então dar-te eu irei
o beijo puro da catedral do amor
Dos sonhos meus, bem junto aos teus
para fugirmos das aflições da dor

Uma canção para unir a estrada e o violeiro, na criatividade de Sidney Miller

Paulo Peres
Poemas & Canções


O compositor e cantor carioca Sidney Álvaro Miller Filho (1945-1980) escreveu um diálogo entre “A Estrada e o Violeiro”, cujo conteúdo poético é excelente, tanto que recebeu o prêmio de melhor letra em 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record (SP). No mesmo ano, a música foi gravada no LP Sidney Miller com a participação de Nara Leão, pela Elenco.

A ESTRADA E O VIOLEIRO
Sidney Miller

Sou violeiro caminhando só,
Por uma estrada, caminhando só
Sou uma estrada procurando só
Levar o povo pra cidade só.

Parece um cordão sem ponta,
Pelo chão desenrolado,
Rasgando tudo o que encontra,
Na terra, de lado a lado,
Estrada de sul a norte,
Que eu passo, penso e peço,
Notícias de toda sorte,
De dias que eu não alcanço,
De noites que eu desconheço,
De amor, de vida ou de morte.

Eu que já corri o mundo,
Cavalgando a terra nua,
Tenho o peito mais profundo,
E a visão maior que a sua,
Muita coisa tenho visto,
Nos lugares onde eu passo,
Mas cantando agora insisto,
Neste aviso que ora faço,
Não existe um só compasso,
Pra contar o que eu assisto.

Trago comigo uma viola só,
Para dizer uma palavra só,

Para cantar o meu caminho só,
Porque sozinho vou a pé e pó.

Guarde sempre na lembrança,
Que esta estrada não é sua,
Sua vista pouco acusa,
Mas a terra continua,
Siga em frente, violeiro,
Que eu lhe dou a garantia,
De que alguém passou primeiro
Na procura da alegria,
Pois quem anda noite e dia,
Sempre encontra um companheiro.

Minha estrada, meu caminho,
Me responda de repente,
Se eu aqui não vou sozinho,
Quem vai lá na minha frente ?
Tanta gente, tão ligeiro,
Que eu até perdi a conta,
Mas lhe afirmo, violeiro,
Mora a dor que a dor não conta,
Mora a morte quando encontra,
Vai na frente um povo inteiro.

Sou uma estrada procurando só,
Levar o povo pra cidade só,
Se meu destino é ter um rumo só,
Choro e meu pranto é pau, é pedra, é pó.

Se esse rumo assim foi feito,
Sem aprumo e sem destino,
Caio fora desse leito,
Desafio e desafino,
Mudo a sorte do meu canto,
Mudo o norte dessa estrada,
Que em meu povo não há santo,
Não há força, não há forte,
Não há morte, não há nada,
Que me faça sofrer tanto.

Vá, violeiro, me leve pra outro lugar,
Que eu também quero um dia poder levar,
Toda a gente que virá,
Caminhando,
Caminhando,
Na certeza de encontrar….

Em “Versos Solidários”, o poeta Evanir Fonseca faz uma reflexão sobre a vida

Homem, com, mochila, sentando, ligado, rocha, em, pôr do sol ...

Reprodução de fotografia do Arquivo Google

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O advogado, administrador de empresas e poeta carioca Evanir José Ribeiro da Fonseca (1955-2017), no poema “Versos Solitários”, faz uma reflexão sobre a vida.

VERSOS SOLITÁRIOS
Evanir Fonseca

O mundo é obscuro para quem só sente a egoísta vontade de se livrar de tudo,
como num mar de lava que a terra cobre, deixando um rastro de destruição.

A vida inexiste onde a felicidade é utópica e a vontade de amar
é só um vulgar prazer, onde o tudo se transforma em nada,
além de um viver numa estática frigidez,
fingidamente escondida por um sorriso ou uma lágrima,
que nas faces rolam ou secam, parados na desfaçatez gélida,
refletidos no espelho do destino, da verdade incontida
e nas rugas de um grito calado que ecoa na surdez do silêncio,
alertando-nos que o fim nos espreita como abutres,
expresso pela indescritível falta do som
da batida de um coração solitário.

Deus, como se tentasse camuflar as perdas sutis do desconhecido destino, dá-nos opções, sem violar o direito do livre arbítrio, numa compensação sem diretrizes evidentes ou outra forma de expressão compensatória e cúmplice, nos nossos erros e acertos, sempre apresenta-nos oportunidades e mostrando ao julgar nossos sentimentos tristes, atormentados, egoístas ou sufocantes, nunca se afasta dos que, a ele, suplicam por novas oportunidades.

Pedimos que nomes ou apelidos sejam afastados dos indivíduos,
em contrapartida do que ocorre na realidade socialmente
quando, como uma tatuagem, ficam gravados e encrustados
nas almas estigmatizadas, numa busca tênue e discreta da sensatez
fazendo com que logo caiamos no esquecimento, criado pelo labirinto de comportamentos resumidos pelo “tempo”, que, sem pena,
nos cobra sob uma sentença arrogantemente imposta,
apagando todos os nossos créditos, virtudes e lembranças,
deixando vívidos os defeitos que maculam nossos eternos deslizes.

Gostaria de ver as pessoas completas e resignadas,
podendo despedirem-se da vida, dizendo a cada um dos outros seres:
“Perdoem-nos, pelos erros cometidos
e rezem para que nós nunca mais renasçamos
com mágoas e rancores, sem conhecermos a palavra perdão!…”

Lembremo-nos sempre que “amar” não é o pecado maior,
e reconheçamos, assim, que fazer outros te amarem é imperdoável!

No hoje, nos vangloriamos da saudade
que acreditamos ter causado em outras pessoas.
Porém, quando a tristeza na incerteza do amanhã nos alcança
é aí, então, o momento… que já deveremos ter sido esquecidos
e na veracidade de que agora, sarcasticamente, seremos os que sofrerão…!

Joguem-se pela janela chamada poesia, como suicidas!
Este é o meu conselho para acabarmos espatifados em versos e prosas, atirados, largados nas solitárias noites, com ou sem luar.

Nunca sejamos hipócritas! Mas sim, seres que se encontram
à espera do perdão incondicional e eterno, se permitido,
num grande acalento no “Adeus”.

Poeticamente, liberdade é um sonho sem fronteiras, na visão de Eurídice Hespanhol

Eurídice Hespanhol, em evento literário no Hotel Quitandinha

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta Eurídice Hespanhol, nascida em Santa Maria Madalena (RJ), criativamente conceituou a “Liberdade”, como um sonho sem fronteiras.

LIBERDADE
Eurídice Hespanhol

Liberdade é o mar que beija a areia,
O céu livre em espaço triunfal
A noite plena de estrelas, a lua derradeira,
O dia imenso de luz, o toque divinal

Liberdade é um sonho SEM FRONTEIRAS,
Um coração que pulsa, vibrando de emoção
Um amor intenso, rompendo barreiras,
vencendo os limites do próprio coração.

Liberdade é o amor que renuncia,
Em benefício de um outro amor igual
Um gesto simples que abafa o egoísmo,
Apaga o ódio, perdoa todo o mal.

Liberdade é enxergar além dos olhos,
Olhar o mundo com total compreensão
É ver a vida além da própria vida
E libertar-se de si mesmo,
Grilhão por grilhão!

Na morte de Noel, Vila Isabel veste luto, pelas esquinas escuto violões em funeral

Sílvio Caldas | immub.org

Silvio Caldas prestou uma grande homenagem a Noel Rosa

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Sílvio Narciso de Fiqueiredo Caldas (1908-1998), o famoso Sílvio Caldas, compôs em parceria com Sebastião Fonseca o samba-canção “Violões em Funeral”, cuja letra retrata o bairro carioca de Vila Isabel, que se fez luto com a morte do compositor Noel Rosa. O samba foi gravado por Sílvio Caldas, em 1951, pela Continental.

VIOLÕES EM FUNERAL
Sebastião Fonseca e Sílvio Caldas

Vila Isabel veste luto,
Pelas esquinas escuto,
Violões em funeral

Choram bordões, choram primas,
Soluçam todas as rimas,
Numa saudade imortal

Entre as nuvens escondida,
Como de crepe vestida,
A lua fica a chorar

E o pranto que a lua chora,
Goteja, goteja agora,
Nos oitis do boulevard

Adeus cigarra vadia,
Que mesmo em tua agonia,
Cantavas para morrer
Tu viverás na saudade
Da tua grande cidade,
Que não te há de esquecer

Adeus poeta do povo,
Que ressuscitas de novo,
Quando na morte descambas
Sinhô, de pele mais clara,
No qual o senhor encarnara,
A alma sonora dos sambas

Meu violão chora tanto,
Soluços e muito pranto,
Sobre o caixão de Noel
Estácio, Matriz, Salgueiro,
Todo o Rio de Janeiro,
Consola Vila Isabel.

Um canção de protesto, inspirada na morte do estudante Edson Luís, em 1968

Sérgio Ricardo - Accueil | Facebook

Sérgio Ricardo compôs muitas canções de protesto

Paulo Peres

Poemas & Canções

O cineasta, artista plástico, instrumentista, cantor e compositor paulista João Lutfi, que adotou o pseudônimo de Sérgio Ricardo, afirma que a letra de “Calabouço” foi inspirada em Edson Luis, estudante assassinado por militares no Restaurante Calabouço, em 1968, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar que vigorava no Brasil. A música foi gravada no LP Sérgio Ricardo, em 1973, pela Continental.


CALABOUÇO

Sérgio Ricardo

Olho aberto ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Eis o lixo do meu canto
Que é permitido escutar
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Cerradas portas do mundo
Cala a boca moço
E decepada a canção
Cala a boca moço
Metade com sete chaves
Cala a boca moço
Nas grades do meu porão
Cala a boca moço
A outra se gangrenando
Cala a boca moço
Na chaga do meu refrão
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Mulata mula mulambo
Milícia morte e mourão
Cala a boca moço, cala a boca moço
Onde amarro a meia espera
Cercada de assombração
Cala a boca moço, cala a boca moço
Seu meio corpo apoiado
Na muleta da canção
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Meia dor, meia alegria
Cala a boca moço
Nem rosa nem flor, botão
Cala a boca moço
Meio pavor, meia euforia
Cala a boca moço
Meia cama, meio caixão
Cala a boca moço
Da cana caiana eu canto
Cala a boca moço
Só o bagaço da canção
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

As paredes de um inseto
Me vestem como a um cabide
Cala a boca moço, cala a boca moço
E na lama de seu corpo
Vou por onde ele decide
Cala a boca moço, cala a boca moço
Metade se esverdeando
No limbo do meu revide
Cala o boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Quem canta traz um motivo
Cala a boca moço
Que se explica no cantar
Cala a boca moço
Meu canto é filho de Aquiles
Cala a boca moço
Também tem seu calcanhar
Cala a boca moço
Por isso o verso é a bílis
Cala a boca moço
Do que eu queria explicar
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um brasileiro de alma vazia.

“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam”, diz a canção de Tunai e Sérgio Natureza

Sérgio Natureza, grande letrista carioca, parceiro de Tunai

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor, poeta e letrista carioca Sergio Roberto Ferreira Varela, conhecido como Sérgio Natureza, mostra nesta belíssima letra (parceria com Tunai) que, realmente, “As Aparências Enganam”. Principalmente, quando se trata de sentimento do tipo amor e ódio e suas infindas consequências. A música foi gravada por Elis Regina no Lp Elis, Essa Mulher, em 1979, pela WEA.

AS APARÊNCIAS ENGANAM
Tunai e Sérgio Natureza

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
Se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

No “Eupoema”, Décio Pignatari conseguiu definir sua personalidade multifacetada

Morte de Décio Pignatari deixa vazio nas artes e na academia ...

Décio Pignatari era a criatividade em pessoa e sabia como usá-la

Paulo Peres
Poemas & Canções

O publicitário, ator, professor, tradutor, ensaísta e poeta paulista Décio Pignatari (1927-2012),um dos maiores agitadores culturais do Brasil contemporâneo, autodefiniu-se intelectual e pessoalmente ao escrever o “Eupoema”.

EUPOEMA
Décio Pignatari

O lugar onde eu nasci nasceu-me
num interstício de marfim,
entre a clareza do início
e a celeuma do fim.

Eu jamais soube ler: meu olhar de errata
a penas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se.

Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém,
são ecos do enlevo. 

Dante Milano, à procura de versos que sejam puros e inocentes como o princípio do amor.

TRIBUNA DA INTERNET | Não há diferença entre o falso amor e o ...

Dante Milano, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O poeta Dante Milano (1899-1991), que nasceu em Petrópolis (RJ), no poema “Descobrimento da Poesia”, deseja escrever versos sem pensar, mas que sejam puros e inocentes como o princípio do amor.

DESCOBRIMENTO DA POESIA
Dante Milano

Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
sem saber o que dizer,
Quero escrever uma coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.

Os mistérios das estrelas errantes, na visão do poeta simbolista Cruz e Sousa

Nada há que me domine e que me vença... Cruz e SousaPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis. No soneto “As Estrelas”, ele questiona se tais astros não são sentimentos dispersos de primitivos grupos humanos.


AS ESTRELAS
Cruz e Sousa

Lá, nas celestes regiões distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca de Quimera,
Lá, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilusões insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas não são os ais perdidos
Das primitivas legiões humanas?!

Naquele bairro afastado, o velho realejo que inspirou Sadi Cabral

Sadi Cabral - AdoroCinema

Sadi Cabral, grande ator e compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O ator e compositor alagoano Sadi Sousa Leite Cabral (1906-1986), em parceria com Custódio Mesquita, aborda alegria, partida, tristeza e saudade de alguém através da música de um “Velho Realejo”. Essa valsa foi gravada por Carlos Galhardo, em 1952, pela RCA Vitor.

VELHO REALEJO
Custódio Mesquita e Sadi Cabral

Naquele bairro afastado
Onde em criança vivias
A remoer melodias
De uma ternura sem par

Passava todas as tardes
Um realejo risonho
Passava como num sonho
Um realejo a cantar

Depois tu partiste
Ficou triste a rua deserta
Na tarde fria e calma
Ouço ainda o realejo tocar

Ficou a saudade
Comigo a morar
Tu cantas alegre e o realejo
Parece que chora com pena de ti

“Vamos precisar de todo mundo”, diziam Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Poeta do clube mineiro, Ronaldo Bastos faz 70 anos com livre ...

Ronaldo Bastos, um poeta realmente genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

Em parceria com Beto Guedes, o jornalista, produtor musical e compositor Ronaldo Bastos Ribeiro, nascido em Niterói (RJ), primeiramente mostra que a música tem como título uma passagem bíblica, quando Jesus diz aos homens vós sois o “Sal da Terra”, ou seja, aquilo que dá sentido, sabor ao mundo. A letra reconhece a ganância humana e a necessidade de se banir a opressão e de se resgatar o amor.

Neste sentido, a letra retrata um mundo que pede socorro, pois está sendo mal tratado pela má administração do homem. É um chamado para melhorar o mundo. Logo, precisamos acatar as palavras do autor: “Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois”. O que precisamos fazer para mudar a situação, é conscientizar todo mundo de que a natureza é a nossa casa, nossa mãe, se ela morrer, morreremos com ela. A música foi gravada por Beto Guedes no LP Contos da Lua Vaga, em 1981, pela EMI-Odeon.

O SAL DA TERRA
Beto Guedes e Ronaldo Bastos
Anda,
quero te dizer nenhum segredo,
falo neste chão da nossa casa.
Vem que tá na hora de arrumar.
Tempo,
quero viver mais duzentos anos,
quero não ferir meu semelhante
nem quero me ferir.

Vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão,
para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor.

A felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver.
A paz na Terra amor,
o pé na terra,
a paz na terra amor
o sal da Terra.

És o mais bonito dos planetas
tão te maltratando por dinheiro,
tu que és a nave, nossa irmã.

Canta,
leva tua vida em harmonia
e nos alimenta com seus frutos,
tu que és do homem a maçã.

Vamos precisar de todo mundo,
um mais um é sempre mais que dois,
pra melhor juntar as nossas forças
é só repartir melhor o pão.

É criar um Paraíso agora
para merecer quem vem depois.

Deixa nascer o amor,
deixa fluir o amor.
Deixa crescer o amor,
deixa viver o amor.
O sal da Terra.

Uma lição de amor à Terra, na poesia criativa e simples de Cora Coralina

Feliz aquele que transfere o que sabe e... Cora CoralinaPaulo Peres
Poemas & Canções

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1880-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, conforme este poema “Cântico da Terra”. Vale ressaltar que a obra de Cora Coralina também nos mostra a vida simples dos becos e ruas históricas de Goiás Velho, a antiga capital do Estado.
O CÂNTICO DA TERRA                                            Cora Coralina


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Em busca da perfeição, Clarice Lispector ficou confusa e fez um poema

Clarice Lispector - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, fala sobre “Perfeição” através deste poema.

PERFEIÇÃO
Clarice Lispector

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.       

Rolando Boldrin, a viola e Deus, no momento de mais uma despedida

Rolando Boldrin, o Sr. Brasil, ganha biografia aos 80 anos - Fala ...

Rolando Boldrin, um grande defensor da brasilidade

Paulo Peres
Poemas & Canções

O ator, cantor, poeta, contador de causos, radialista, apresentador de televisão e compositor paulista Rolando Boldrin, na letra de “Eu, a Viola e Deus”, explica sua ida para reencontrar um amor, embora a hora desta partida seja dolorida. A música faz parte do álbum “Vamos Tirar o Brasil da Gaveta”, gravado por Boldrin em 2004.

EU, A VIOLA E DEUS
Rolando Boldrin

Eu vim-me embora
E na hora cantou um passarinho
Porque eu vim sozinho
Eu, a viola e Deus

Vim parando assustado, espantado
Com as pedras do caminho
Cheguei bem cedinho
A viola, eu e Deus

Esperando encontrar o amor
Que é das velhas toadas canções
Feito as modas da gente cantar
Nas quebradas dos grandes sertões

A poeira do velho estradão
Deixou marcas no meu coração
E nas palmas da mão e do pé
Os catiras de uma mulher, ei…

Essa hora da gente ir-se embora é doída
Como é dolorida,
Eu, a viola e Deus

Com o Brasil caminhando desse jeito, Chico Salles não sabia aonde ele ia chegar

Chico Salles – Mills Records

Chico Salles era cantor, compositor e cordelista

Paulo Peres
Poemas & Canções

O engenheiro, cantor, compositor e cordelista paraibano Francisco de Salles Araújo (1951-2017), neste martelo agalopado, deixou seu pensamento percorrer “Os Caminhos do Brasil”.
OS CAMINHOS DO BRASIL
Chico Salles

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
Esse papo vem do meu pensamento
Sem querer envolver outra pessoa
Falo assim deste jeito e numa boa,
Escrevendo aqui o meu lamento,
Construir uma família é um tormento
A canção não se tem pra quem mostrar
No amigo não se pode confiar
Eu só vejo vaidade e preconceito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.

Nossos rios estão todos poluídos
Nossa mata tá sendo derrubada
Guris assaltando a mão armada
O saber bem longe dos oprimidos
Os homens cada vez mais desunidos
O futuro demorando a chegar
Assim é difícil ate sonhar
Nunca mais ouvi falar em respeito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
As noticias nos deixam descontentes
Confusas com assuntos arrumados
Ate os escritores renomados
São a todos os fatos indiferentes
Tão de férias descansando e ausentes
Omissos e sem nada a declarar
Quando é que iremos despertar
E exigir o que nos é de direito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
O progresso aqui é só pretexto
Cresce mesmo é a ponta da miséria
Esta é a afirmação mais séria
Que trago neste meu martelo texto
Afirmando, confirmando no contexto
Já saí por aí a pesquisar
Com tristeza e revolta constatar,
Para aqui apontar este conceito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
Na política é só corrupção
O modelo econômico indecente
A impunidade está presente
Muita hipocrisia e ambição
O descaso com a população
Tá na hora do povo acordar
Botar fogo para a chapa esquentar
E da vida tirar melhor proveito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
E assim, sempre pela contra mão.
A família tem a bolsa como esmola
Juventude aí cheirando cola
A maior desgraça da Nação
Sem saber o que é educação,
A TV ajudando alienar
Algum dia esse bicho vai pegar
A causa passará a ser efeito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar. 

“Estrofes em crise”, um poema marcado pela quarentena da covid-19

Foto do perfil

Antonio Rocha, um notável poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor, escritor e poeta carioca Antonio Carlos Rocha, Doutor e Mestre em Ciência da Literatura, afirma que, os versos do poema “Estrofes em Crise” surgiram-lhe em 18/06/20, às 06h15, inspirado no seu impulso poético na quarentena que estamos vivendo por conta da pandemia da Covid-19.

ESTROFES DA CRISE
Antonio Carlos Rocha

Esposa, por favor
Espera um pouco
Está me nascendo
Um poema agora.

Mas isso é todo dia
Tem que varrer/aspirar
A casa.

Senão essa quarentena
Vai ser e ter muitos
Alergizantes

E eu não aguento mais
Os seus poéticos
Rompantes.

Casei com um poeta
Intelectual
Mas tenho que
Preparar o almoço.

Ou como diria Jesus
Nem só de versos
Vive o homem.

Uma canção eterna, criada por René Bittencourt em louvor à mulher sertaneja

René Bittencourt | Discography | Discogs

René Bittencourt criou músicas inesquecíveis

Paulo Peres
Poemas & Canções

O empresário artístico, jornalista e compositor carioca René Bittencourt Costa (1917-1979) utiliza hipérboles para fazer a “Sertaneja” feliz, nesta belíssima, romântica e bucólica letra. Essa canção foi gravada por Orlando Silva, em 1939, pela RCA Victor.

SERTANEJA  
René Bittencourt

Sertaneja se eu pudesse
se papai do céu me desse
O espaço pra voar
eu corria a natureza
acabava com a tristeza
Só pra não te ver chorar
Na ilusão desse poema
eu roubava um diadema
lá no céu pra te ofertar
e onde a fonte rumoreja
eu erguia a tua igreja
e dentro dela o teu altar

Sertaneja, por que choras quando eu canto
Sertaneja, se este canto é todo teu
Sertaneja, pra secar os teus olhinhos
vai ouvir os passarinhos
que cantam mais do que eu

A tristeza do teu pranto
é mais triste quando eu canto
a canção que te escrevi
e os teus olhos neste instante
brilham mais que a mais brilhante
das estrelas que eu já vi

Sertaneja eu vou embora
a saudade vem agora
alegria vem depois
vou subir por estas serras
construir lá n’outras terras
um ranchinho pra nós dois