
Zema tenta se diferenciar do bolsonarismo
Luísa Marzullo
O Globo
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), aposta no cansaço do eleitorado com a polarização para sustentar sua pré-candidatura ao Planalto e tenta se afirmar como um nome da direita com estilo distinto do bolsonarismo.
Embora diga ser mais próximo de Jair Bolsonaro do que de Lula no espectro ideológico, Zema critica o que chama de “idolatria política”, afirma que o país vive um esgotamento do radicalismo e sustenta que há espaço para um candidato que dialogue com eleitores que rejeitam os dois polos.
O senhor se diz candidato à Presidência. Existe espaço real para quebrar a polarização entre petismo e bolsonarismo?
O brasileiro continua polarizado, mas está cansado desse radicalismo e extremismo. Sempre estou em contato com as pessoas no interior do estado e percebe-se um cansaço desse clima de “eu faço tudo certo e o outro faz tudo errado”. Isso tem data de validade. As pessoas vão se fartando. Hoje acho que pouco se acompanha isso porque é o mais do mesmo de sempre. Precisamos de eventos novos na política.
O senhor se considera uma terceira via? Onde se posiciona nesse espectro?
Se avaliarmos que num extremo está Lula e no outro está Bolsonaro, eu diria que estou bem mais próximo do Bolsonaro do que do Lula, mas não tão à direita quanto ele, porque tenho opiniões diferentes. Não acredito em idolatria, em seguir tudo que alguém fala. Acredito em debate, em pessoas maduras que têm ideias diferentes. Dentro do espectro direita–esquerda, pelas propostas que temos, sou considerado mais à direita. Agora, na polarização política, talvez quem é Bolsonaro esteja um pouco mais à direita do que eu.
O senhor avalia que fala com o mesmo eleitorado de Flávio Bolsonaro ou com um segmento diferente da centro-direita?
Há muita sobreposição, mas também um eleitorado diferente. Há pessoas que rejeitam Lula e rejeitam Bolsonaro. Sempre haverá espaço para um terceiro nome.
O PSD filiou Ronaldo Caiado e ainda tem como opções lançar Ratinho Júnior ou Eduardo Leite à Presidência. O senhor mantém a candidatura nesse cenário ou vai apoiá-los?
Nós vamos ter provavelmente três candidatos pela direita: eu, Flávio Bolsonaro e aquele que for definido pelo PSD. Levarei a minha pré-candidatura até o final porque tenho propostas diferentes. Quem acompanha o meu trabalho em Minas sabe que herdamos um estado arruinado e fizemos coisas que são exceções no contexto político do Brasil. Precisamos do que no mundo empresarial se chama dar uma chacoalhada no setor público. Em Minas resgatamos o estado adotando lições de gestão que o mundo político resiste a utilizar.
O que achou do movimento de Caiado e da formação desse bloco?
Fico muito feliz de a direita estar caminhando unida. Diferentemente do que muitos falam, de que precisaria ter só um candidato, se ela tiver dois, três ou quatro estará mais fortalecida. Quanto mais candidatos tivermos pela direita, mais votos teremos. No segundo turno, que será determinante, aí sim estaremos todos juntos apoiando aquele que passar.
O governador Eduardo Leite disse que muitas candidaturas podem dispersar votos e levar Flávio Bolsonaro ao segundo turno, reproduzindo a polarização. O senhor concorda?
É uma hipótese, mas, como eu disse, mais candidatos significam mais votos. Se eu for para o segundo turno, espero receber apoio. Se o Ratinho for, pode contar comigo. Se o Flávio for, pode contar comigo também. Estarei no segundo turno ou trabalhando para mim ou trabalhando para eles.
Vai até o fim com a sua candidatura em qualquer circunstância?
Vou sim. Comecei com 1% em Minas e cresci à medida que as propostas ficaram conhecidas. Sei que o Brasil é muito maior, mas é possível.
O senhor aparece com no máximo 5% das intenções de voto na última pesquisa Quaest. Por que manter a candidatura?
Sou o único governador que teve de consertar o que foi destruído pelo PT. Tenho na bagagem como melhorar a educação, a saúde, a segurança e a infraestrutura, como fizemos em Minas com uma gestão sem escândalo, enxuta. Se foi possível em Minas, é possível no Brasil.
O senhor já disse que, se eleito, daria indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Mantém essa posição?
Mantenho sim. O Brasil precisa passar uma borracha nesse capítulo das tentativas de golpe que a esquerda tanto fala. Não tivemos tiros, mortes violentas, combates, envolvimento de forças armadas. O que tivemos foi alguém que idealizou algo que mal saiu do papel e que recebeu uma punição como se tivesse feito uma movimentação armada com milhares de vítimas, que não tivemos. Foi uma retaliação desproporcional.
O senhor pretende visitá-lo na prisão?
Estive com ele há cerca de cinco ou seis meses, pouco antes de ele ser obrigado a colocar a tornozeleira. Foi o primeiro com quem discuti minha pré-candidatura à Presidência e ele falou que quanto mais candidatos houver pela direita, melhor. Sempre tenho notícias dele por pessoas que o visitam. Ainda não tive essa oportunidade, mas gostaria sim. Já tem alguns meses que não o encontro e estou torcendo pela recuperação da saúde.
O senhor já iniciou conversas para formar palanques fora de Minas? O Novo não governa nenhum outro estado. Como pretende fazer campanha?
O presidente do Novo já tem conversas fora de Minas, e isso será intensificado. Em 2022 fizemos aliança com nove partidos em Minas. Estamos abertos a alianças Brasil afora.
O PSD em Minas abriga o vice-governador Mateus Simões, seu nome para a sucessão estadual. Um projeto nacional do PSD pode alterar o cenário em Minas?
Darei apoio ao vice-governador e ele dará apoio a mim. Não vamos proibir que um candidato nacional do PSD venha a Minas, ele virá, mas não terá o apoio nem o palanque do vice. Isso foi tratado de forma muito clara entre Novo e PSD. Caminharemos dessa forma.
Representações no TCE-MG e no Ministério Público questionam o uso de aeronaves oficiais em agendas que coincidem com sua pré-campanha. O senhor está usando a estrutura do governo para se projetar eleitoralmente?
Estão procurando “pelo em casca de ovo” e não vão encontrar. Estão me confundindo com políticos tradicionais, que confundem equipamentos do Estado com vida própria. Ontem mesmo voltei da minha cidade de carro. Tenho autorização para usar aeronave, mas prego economia. Houve um episódio específico: tive um compromisso no Rio de Janeiro com o governador Cláudio Castro, atrasamos muito e cheguei após o encerramento de um congresso. Minha participação oficial como governador não foi possível, mas estive reunido com os organizadores até quase meia-noite. E olha a ironia: só estão tendo acesso a esses dados porque eu os disponibilizei.
No passado, o senhor disse que Sul e Sudeste “carregam o país nas costas”, o que foi visto como crítica às demais regiões. Mantém essa posição?
Sul e Sudeste são regiões muito representativas em população, produção e arrecadação, com alguns dos melhores indicadores de renda e desenvolvimento do país. O que dá certo nelas é plenamente factível no restante do Brasil. Idealizei o Cosud, que hoje tem ações conjuntas, inclusive na área de segurança pública e cooperação entre defesas civis. Não vejo isso como algo que prejudique minha viabilidade nacional. Me dou muito bem com políticos nordestinos e do Norte. Acredito no Brasil como federação, numa união forte. O que disse foi que estados que arrecadam mais contribuem muito para os demais — e continuarão contribuindo.
Em Minas, o senhor adotou uma agenda de privatizações. Pretende replicar esse modelo nacionalmente?
Sou favorável. Dou o exemplo da Cemig: ampliamos geração solar, resolvemos falta de energia e construímos subestações. Sou favorável à privatização. O Estado pode ser sócio, receber dividendos, mas não pode mandar. Estatal é lenta, precisa cumprir uma série de exigências legais. Obras que poderiam ser feitas em um ano levam três, quatro. Se fossem concessionárias, já estariam prontas. O que é prioritário é aquilo que está mais viável. Os Correios poderiam ter sido vendidos há sete anos e não foram porque houve oposição, e está aí o resultado. Onde você tem hemorragia, tem de agir com mais rapidez.
Zema acha que quanto mais candidatos à presidência tiver a direita, melhor.
Eu acho que a esquerda de Loola está prenhe de idolatria.
Loola como $talin não gosta de ninguém à sua sombra, o russo mandou matar Trotsky. Mas a facada em Bolsonaro foi feita por um doido solitário que permanece internado num hospício.
Os nossos Simôes Bacamartes o internaram na Casa Verde.
O sarcasmo é uma via onde se pode solapar os velhacos autoritários e poderosos.