Paulo Peres
Poemas & Canções
O jornalista, crítico de arte, teatrólogo, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta maranhense José Ribamar Ferreira (1930-2016), o famoso Ferreira Gullar, explicava poeticamente por que “Não Há Vagas” para os dramas diários.
NÃO HÁ VAGAS
Ferreira Gullar
O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás,
a luz, o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome,
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerilha seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago,
a mulher de nuvens
a fruta sem preço.
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.
Poema só com inspiração!
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Falar do quê
De mim e de você?
Falar da moça na janela
Da coroa tagarela
Da virgem que se perdeu
Do andar lento do gado
Da sorte do marido enganado
Do amante que se escafedeu?
Para não dizer BANALIDADES
Prefiro deixar a vaidade de lado
E com meu ego destroçado
Enterrar o poema que nem nasceu