Flávio Bolsonaro tenta se moderar para atrair o Centrão, mas o discurso segue radical

Flávio não é um candidato de direita moderada

Diogo Schelp
Estadão

Os marqueteiros do PL terão muito treinamento a fazer com o senador Flávio Bolsonaro após o seu discurso no fórum da CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), que reuniu a direita trumpista no último sábado, 28, em Grapevine, no Texas.

Inquieto, o pré-candidato à Presidência balançava o corpo incessantemente para a esquerda e para a direita, e da direita para a esquerda, enquanto lia o discurso no teleprompter.

INSEGURANÇA – Especialistas em oratória diriam que esse comportamento transmite nervosismo e insegurança, além de desviar a atenção do público. Flávio talvez se sinta desconfortável em discursar em inglês. Mas a inquietude do senador e a dificuldade de manter os dois pés firmemente plantados no chão, com o peso do corpo bem distribuído entre eles, também podem ser uma metáfora para os dilemas que se impõem a ele na tentativa de construir a imagem de um político moderado.

Com a perspectiva de uma disputa eleitoral equilibrada, Flávio precisa conquistar o voto dos independentes, aqueles que não se consideram nem petistas, nem bolsonaristas, para vencer. Segundo pesquisa Genial/Quaest de início de março, porém, mais da metade dessa fatia do eleitorado considera o filho “01″ tão radical quanto o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Até agora, o que se viu de moderação na postura de Flávio está mais na forma do que no conteúdo.

Ele fala de um jeito mais manso e menos agressivo do que Jair. Não é tão comum ouvir dele comentários ultrajantes ou ofensivos como os que o ex-presidente costuma (ou costumava) disparar, inclusive quando na Presidência, sobre jornalistas mulheres, gays, vítimas da covid-19 e adversários políticos. Em algumas dessas ocasiões, Flávio apareceu para defender, contextualizar ou minimizar as declarações do pai, geralmente com a ideia de “traduzir” para uma linguagem mais moderada o que Jair, de fato, queria dizer.

BOLSONARISTA ATÉ A MEDULA – Mas o conteúdo, ou seja, as ideias que Flávio sempre defendeu e segue defendendo, pelo menos até agora, não são capazes de transformá-lo em um pré-candidato de direita moderada. Ele é bolsonarista até a medula, e não só no sobrenome. O discurso na CPAC é uma prova disso. Flávio afirmou que o pai está preso por se opor ao sistema e que as mesmas pessoas que o condenaram à cadeia tiraram Lula da carceragem e o colocaram de volta na Presidência (mas o senador omitiu que, entre uma coisa e outra, houve uma eleição incontestável que deu vitória a Lula contra um Bolsonaro com alto índice de rejeição).

Ao elencar o que ele considera serem os grandes feitos do seu pai, Flávio afirmou que ele lutou contra a “tirania da covid”, contra os interesses da “elite global”, contra a “agenda ambiental radical” e contra a pauta woke. Ou seja, focou nas guerras culturais que estabelecem um fosso entre as duas principais forças políticas do País, mas não disse uma única palavra sobre a defesa de uma política econômica liberal.

O substituto de Jair Bolsonaro na disputa presidencial também deu asas à teoria conspiratória de que o “Estado profundo” do ex-presidente americano Joe Biden, adversário de Donald Trump, interferiu nas eleições brasileiras para levar o “socialista” Lula de volta ao poder. E pediu que os americanos monitorem as eleições deste ano, dando a entender que, se não vier a ser declarado vencedor, é porque os votos não foram contados corretamente.

VALORES CONSERVADORES – O discurso na CPAC serviu para relembrar o fato de que Flávio Bolsonaro não pertence à direita moderada – que, entre outras coisas, se caracteriza por defender os valores conservadores de forma negociada, com respeito ao pluralismo existente na sociedade, e por colocar a agenda econômica liberal e o compromisso com o jogo democrático em primeiro plano.

A retórica antissistema, conspiracionista e de culto personalista a um líder carismático, como se viu no discurso de Flávio, não é um traço da direita tradicional e moderada. Tampouco o é a estratégia de lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro, que em 2022 evoluiu para uma tentativa fracassada de golpe de Estado.

Os marqueteiros provavelmente vão treinar Flávio Bolsonaro em oratória e postura de palco, para não mais balançar de um lado para o outro enquanto discursa. Mas transformá-lo em um moderado, no “Flávio paz e amor”, vai ser uma tarefa bem mais desafiadora. O conteúdo contradiz a forma.

6 thoughts on “Flávio Bolsonaro tenta se moderar para atrair o Centrão, mas o discurso segue radical

  1. Kassab decreta o fim da alternativa a Lula e Flávio Bolsonaro

    Escolha de Caiado como pré-candidato à Presidência é a admissão de que o PSD desistiu de disputar o espaço (centro) que dizia querer ocupar

    Sem uma candidatura minimamente competitiva de centro, o eleitor que rejeita tanto Lula quanto o bolsonarismo continua sem opção viável. Fica órfão ou é empurrado para um dos polos.

    O Antagonista, Política, 30.03.2026 16:44 Por Ricardo Kertzman

    • O discurso de “Moderado ” é uma falácia. História para boi dormir.
      Flávio candidato é varão golpista como o pai golpista, aliás é praxe da família.

      O falso discurso de Moderado tem o objetivo de acalmar o mercado e os agentes econômicos da indústria e do comércio.
      Em discurso nos EUA, na plateia de Instituto dos Conservadores, pediu intervenção externa para monitorar as eleições de outubro, mesmo discurso do pai contra as Urnas Eletrônicas, sim aquelas que o elegeu deputado estadual pelo Rio e duas vezes só Senado. Nem liga para a lógica e a contradição.

      Outra aberração do falso moderado, no discurso conservador nos EUA, foi a pregação para o Brasil seguir os valores americanos: O que o moderado golpista quis dizer:

      O Brasil invadir os vizinhos para tomar territórios?
      Acabar com todas as políticas sociais, como Bolsa Família, SUS e flexibilização das vacinas e tiro porrada e bombas contra os imigrantes, os atuais valores americanos usados por Trump.
      Flávio, o moderado entre aspas, perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado.

  2. Schelp é petralha de nascimento e um devoto da santa imaculada e inviolável urna roubotrônica, isso é tudo que precisamos saber sobre a sua análise.

    • Posso estar errado mas sempre pensei que era “tucanalha”……

      Uma boa parte dos militantes fantasiados de jornazistas tem uma caida pela Máfia Tucanostra……..

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *