
Charge do Marco Jacobsen (Arquivo Google)
Carlos Newton
Chega de embromação! Vamos direto do produtor ao consumidor ou do criador à criatura. Para apurar realmente o escândalo do Banco Master, a Polícia Federal terá de investigar profundamente também o Banco Central, que em 2019, na gestão de Ilan Goldfajn se recusou a aceitar a compra do então Banco Máxima por Daniel Vorcaro e oito meses depois aprovou o mesmo negócio.
A aceitação ocorreu no início da gestão de Roberto Campos Neto, em função da reconhecida “capacidade econômica” do comprador, que na verdade era apenas um audacioso fraudador. Detalhe importante: em ambos os casos, as decisões foram tomadas por unanimidade pela diretoria colegiada.
ASSESSORAMENTO – Excelente reportagem de Nathalia Garcia, na Folha, mostra que Vorcaro contou com assessoramento jurídico de Isaac Sidney, ex-diretor do BC, hoje presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), reapresentou documentos e passou a contar com apoio do Banco Central .
De 2017 a 2019, Vorcaro apresentou ao menos duas vezes a chamada “declaração de propósito” para a compra do Máxima, com mudanças na proposta de controle da instituição. Na época, ele era participante qualificado do banco, com ao menos 15% do capital total.
Outro detalhe importante: depois de pedir exoneração do BC e cumprir quarentena, Isaac Sidney passou a integrar o escritório de advocacia liderado por Valdrido Warde que tinha o Banco Máxima como cliente e c continuou trabalhando para o Master e para Vorcaro.
FALHAS NO PROCESSO – A repórter Nathalia Garcia relata que o BC identificou falhas no processo, em que Vorcaro apresentou, entre outros elementos, a distribuição de resultados da Viking Participações, firma que ficou conhecida por ser dona de três aeronaves que o banqueiro costumava usar, além de imóveis e fundos de investimento.
Mas havia dúvidas sobre a origem dos recursos, que parecia nebulosa. Os técnicos do BC suspeitaram de “circularização” de recursos, ou seja, que o próprio Banco Máxima estivesse financiando a operação.
Como Vorcaro não cumpria os requisitos econômicos, a autoridade monetária não chegou a analisar a condição de “reputação ilibada”. E a recusa foi fundamentada pelo relator Sidnei Corrêa Marques, na época diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC.
APOIO INTERNO – É óbvio que Vorcaro contou com forte apoio interno de técnicos e também de diretores do Banco Central na gestão de Campos Neto.
Seguindo as pistas, a Polícia Federal está investigando diversos dirigentes do BC. Um deles é Paulo Sérgio Neves de Souza, diretor de Fiscalização entre 2017 e 2023, suspeito de ter prestado consultoria informal a Vorcaro.
Como mostrou a Folha, a investigação interna da autoridade monetária apontou indícios de que esse diretor do BC simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para ocultar o recebimento de propina do Master.
CELULAR DE VORCARO – Em mensagem no celular, Vorcaro diz a um destinatário identificado como Paulo que estava havia dois anos sendo “rechaçado” e “humilhado”. A comunicação é do início de fevereiro de 2019, dias antes de a operação ser rejeitada.
“Eu fiz todas as mudanças e concessões. Até hoje não consegui iniciar o trabalho efetivamente por conta do imbroglio do capital. Precisamos resolver isso, precisamos de sua ajuda para que o Sidnei aprove agora, antes da sua saída”, escreveu.
Está claro que o banqueiro se refere Paulo Sérgio e a Sidnei Corrêa Marques, diretor encarregado pelo voto levado à diretoria.
DIZ A DEFESA – A jornalista procurou a defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza, que disse, em nota, que ele “não se recorda do que se trata [a mensagem] e em que contexto, mas lembra que, com relação à operação do Máxima, havia problema relacionado à comprovação de capacidade econômica.”
“É usual em toda transferência de controle que a área de supervisão, ocupada por Paulo Souza, subsidie a área de Organização. Mas a decisão de encaminhamento de voto para deliberação da diretoria colegiada é sempre da Diorf [Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução], que tem o poder sobre tais atos”, acrescentou, dizendo também que a equipe técnica de servidores do departamento permanece a mesma.
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P.S. – Tom Jobim tinha razão: “É a lama, é a lama..”. Está inteiramente claro que, no caso Master, houve conivência do Banco Central antes, durante e depois da queda. Se Vorcaro fizer delação sem envolver os dirigentes do BC, seus depoimentos não terão valor algum, serão iguais aos CDBs que ele inundou no mercado com juros totalmente irreais, impagáveis, e o BC não fez nada, absolutamente nada. O risco é haver uma delação meia-sola ou meia-bomba, que está parecendo com o inquérito do fim do mundo criado ilegalmente pelo ministro Moraes, pois o tempo passa e a delação não sai nunca. (C.N.)
O BC está perdendo a suposta “aura de santidade” (entendida como a imagem de instituição tecnicamente imaculada e acima da política).
Enfrenta um momento de politização técnica, onde a sua atuação é questionada não apenas tecnicamente, mas no seu papel institucional e político, o que diminui a percepção de que a instituição opera em um ambiente totalmente neutro.