‘Estratégia ambiental do governo é equivocada, míope e de curto prazo’, diz líder ruralista

Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira

Camargo Neto lamenta os equívocos da política ambiental deste governo

Márcia De Chiara
Estadão

A estratégia do governo brasileiro na questão ambiental é míope e equivocada e o Brasil está numa posição subalterna em relação aos Estados Unidos, China, Europa, os grandes responsáveis pelo aquecimento global. A avaliação é de Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira e ex-secretário de Produção e Comércio do Ministério da Agricultura nos anos  2001 e 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

No lugar de pedir dinheiro aos países ricos, o governo, na sua opinião, deveria pressionar as nações causadoras do aquecimento global para que elas façam a sua parte, já que o aquecimento global pode provocar uma catástrofe e colocar em risco a agricultura brasileira.

Como o sr. vê a atual situação do agronegócio e da pauta ambiental?
Há uma polarização geral no País e no agronegócio, que afeta até a pauta ambiental. Tem uma parte que defende o governo Bolsonaro, independente de qualquer coisa. E outra parte que o contesta. Essa polarização tem impedido debates construtivos dentro do agronegócio e em qualquer outro lugar, o que dificulta muito resolver a questão.

Como o agronegócio vem lidando com a pauta ambiental da sustentabilidade dos seus produtos e da redução do desmatamento?
Todo mundo tem a questão da sustentabilidade como uma preocupação. Digo isso com tranquilidade, porque fui presidente da Sociedade Rural Brasileira nos anos 1990 e lancei em 1994 uma cartilha sobre a preservação do meio ambiente. Existiu a preocupação de ter um Código Florestal. A questão climática ganhou projeção internacional muito grande com a eleição do Biden. A Europa tem todo um direcionamento da sua política agrícola pautada na questão ambiental e os Estados Unidos estão caminhando nesse sentido. E a gente está aqui ou brigando pelo desmatamento ou pedindo dinheiro. É o que o governo tem feito. O Salles (Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente) esteve em Madri e pediu dinheiro, quando apresentou a meta no Acordo de Paris de neutralidade nas emissões de gases de efeito estufa. E agora, na cúpula nos EUA, o mesmo pedido de dinheiro. Vejo isso como equivocado, porque o Brasil e a agricultura brasileira correm risco muito grande por conta do aquecimento global.

Como assim?
O aquecimento global, que ainda não chegou a um grau e meio acima do nível pré-industrial, já abriu áreas de produção na Rússia que antes eram geladas. No Brasil, temos cinco biomas e podemos ter mudanças no regime de chuvas que podem colocar em risco a nossa produtividade de regiões inteiras. O aquecimento global pode colocar em risco a agricultura brasileira ou parte dela.

Como tratar essa questão?
O Brasil tinha de ter uma estratégia. Quem está causando esse aquecimento global não é o país. São os Estados Unidos, a China e a Europa. Eles estão causando algo que pode nos prejudicar muito. Ao invés de pressioná-los, estamos pedindo dinheiro. A perda de produtividade de duas safras é um prejuízo muito maior do que qualquer coisa que se possa obter com crédito de carbono. E aqui só se fala em dinheiro, crédito de carbono, pagamento de serviço ambiental. Há toda uma estratégia para ganhar dinheiro com o que pode ser uma catástrofe.

Então a estratégia do governo é equivocada?
É totalmente equivocada, míope e de curto prazo. Estados Unidos, China e Europa estão causando o desastre e preocupados em não continuar causando. Estão reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, fazendo investimentos milionários no carro elétrico, por exemplo. Nós, que podemos sofrer o desastre que eles estão provocando e podemos pagar o pato, parece que não estamos preocupados. Estamos vendo como oportunidade para ganhar dinheiro.

O que precisaria ser feito para mudar isso?
Precisaria ter consciência. O aquecimento global é sério. Esse um grau e meio não pode acontecer, porque terá reflexos no Brasil. Como o país está numa posição até vantajosa, temos uma matriz hídrica na energia elétrica, carro a álcool, biodiesel, teríamos de pressionar fortemente a Europa, China, Estados Unidos para eles fazerem a parte deles. Nós teríamos de estar numa posição de força, pressionando, não querendo passar o pires. Acho que é um erro estratégico e muito grave. A questão do aquecimento global não é gripezinha. É algo sério, mas existe o negacionismo, o mesmo que há em relação à covid-19.

O sr. acha que o Brasil tem condição de virar o jogo da agenda ambiental?
Virar o jogo não tem condição, mas acho que estamos numa posição subalterna. E, no clima, não éramos para ser subalternos. O Brasil é um país positivo com o clima. Não é por coincidência que a Rio Eco 92 foi no Brasil.

Mas e o desmatamento?
No desmatamento não fizemos nada. Não podíamos ter deixado o desmatamento chegar onde chegou. O desmatamento é o nosso calcanhar de aquiles. Basicamente, é ilegal e cresceu. O que estamos fazendo? Nada ou quase nada. Estamos pedindo uma graninha para começar a fazer. Está errado.

O sr. acha que existem condições de se dar passos nessa direção com essa configuração política atual?
Acho que a sociedade tem de se posicionar. Se houver essa clareza, se a sociedade estiver mobilizada, qualquer governo muda.

Partido Avante, que apoia Bolsonaro, é presidido no RS pelo ex-assessor “queridinho” de Dilma Rousseff

O verdadeiro dono do Partido Avante no RS é o "ex-menino" da Dilma: Anderson Dorneles

Dorneles tinha sala ao lado do gabinete da presidente Dilma Rousseff

Ricardo Antônio
Imprensa Livre

O verdadeiro dono do Partido Avante no Rio Grande do Sul é Anderson Dorneles, o mais próximo assessor da então presidente Dilma Rousseff, que tinha sala ao lado dela no Planalto e e ela chamava de “menino” e “queridinho”, até ser envolvido pela Lava Jato e ter R$ 2,2 milhões bloqueados pela Justiça.

Anderson Dorneles foi um dos criadores do Partido Avante no Rio Grande do Sul e se tornou presidente da legenda, que apoia o governo de Jair Bolsonaro. O “ex-menino” da Dilma é quem manda no Avante gaúcho…

DEMITIDO EM 2016 – Mas “o menino”, como Dilma chamou seu ex-braço direito por mais de 20 anos, não precisa prestar contas à ex-chefe desde sua demissão, em fevereiro de 2016…

Ele foi exonerado do cargo depois que começou a circular a informação de que era sócio de um bar dentro do estádio Beira-Rio, obra ligada à empreiteira Andrade Gutierrez, investigada pela Lava Jato por suspeita de corrupção em empreendimentos da Copa do Mundo de 2014.

Dilma ficou furiosa e pediu que o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, hoje seu advogado, buscasse esclarecimentos com Anderson. Sem eles, ordenou que “o menino” deixasse o cargo. E não se falaram mais.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Como dizia Vinicius de Moraes, a vida é assim, cheia de encontros e desencontros. (C.N.)

Presidente da CPI da Covid diz que Queiroga pode ser chamado para prestar novo depoimento

Omaz Aziz é senador da república do PSD-AM

Omar Aziz diz que o depoimento de Queiroga deixou a desejar

Filipe Matoso
G1 — Brasília

O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), afirmou neste domingo (9) em entrevista à GloboNews que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, pode ser chamado a prestar um novo depoimento.

Queiroga prestou depoimento à CPI na semana passada por cerca de oito horas. No entanto, integrantes da comissão ficaram incomodados com o fato de Queiroga ter evitado responder perguntas sobre alguns temas.

NOVA CONVOCAÇÃO – Para que Queiroga compareça novamente à comissão, um integrante da CPI deve apresentar um requerimento, e o plenário deve votá-lo e aprová-lo. Se aprovada nova convocação, Queiroga será obrigado a comparecer a uma sessão, em data a ser definida.

“O ministro será chamado, naturalmente, porque tudo aquilo que ele está mostrando, o governo está indo na contramão do que ele disse. Não sou eu que estou me contradizendo. Quem está se contradizendo nas atitudes é o próprio Queiroga”, declarou Aziz neste domingo.

“O que mais nós perguntamos para o [ex-ministro] Teich e para ele [Queiroga] foi: ‘Qual o planejamento que os ministros que antecederam ele deixaram?’. Ele não sabia dizer porque estava só há 40 dias lá. Talvez, agora, ele consiga nos dizer o que, de fato, encontrou no ministério. Ele tem que dizer. Ele não falou”, acrescentou o presidente da CPI.

CONTRA AGLOMERAÇÃO – Ainda na entrevista, Aziz mencionou o fato de Queiroga ter dito à CPI que qualquer aglomeração deve ser dissuadida, mas que, neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro passeou de moto por Brasília com um grupo de apoiadores.

“O ministro Queiroga disse que é contra qualquer tipo de aglomeração. O presidente, infelizmente, fez hoje uma grande aglomeração, sem usar máscara. Eu faço aqui um apelo ao presidente: ouvir o ministro dele. Eu acho que o presidente, que é a grande liderança do país, que é a pessoa que tem que nos conduzir, ou ele nos conduzirá para a salvação, através da vacina, ou ele nos conduzirá para o caos, para os óbitos. Esse apelo eu faço como brasileiro, senador, não como presidente da CPI, para que ele possa colaborar nesse sentido, pedir que os ministros colaborem. Não tem Super-Homem para essa doença.”

DISSE QUEIROGA – Entre outros pontos, Marcelo Queiroga disse a vacinação contra a Covid é um fator “decisivo” no combate à doença, não o chamado tratamento precoce. Também afirmou ser necessário reforçar para a população a importância do uso de máscara contra a Covid.

No entanto, ao ser questionado sobre o fato de presidente Jair Bolsonaro defender o uso da cloroquina contra a Covid, remédio cientificamente comprovado ineficaz contra a doença, Queiroga disse que não faria “juízo” sobre o tema.

Assim como no caso da cloroquina, Queiroga também evitou responder sobre alguns outros temas, como as gestões anteriores da pasta.

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CPI VAI CHAMAR PAZUELLO DE SENHOR E NÃO DE GENERAL

Octavio Guedes
GloboNews

A CPI da Covid bateu o martelo: o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello será tratado pelos senadores como “senhor Pazuello”. Nada de “general”. A estratégia é para deixar bem claro que a CPI quer jogar luz na atuação dele enquanto ministro — um cargo civil — e isolar a instituição Exército de toda a lambança.

Como o blog havia informado, o próprio Exército fez chegar ao general a informação de que ele será desmentido caso venha dizer que a cumpriu uma missão autorizada e determinada pela Força ao aceitar sua ida ao ministério.

Aliás… Por falar no senhor Pazuello, que vai depor em 19 de maio na CPI da Covid, quem esteve com ele nos últimos dias retrata seu comportamento como o de alguém nervoso e com medo.

Numa das sessões de treinamento para a audiência da CPI, o chamado media training, ele teria discordado da estratégia do governo e desabafado: “Vocês não vão me deixar sozinho nisso, não”. A sessão acabou interrompida. Foi um senhor constrangimento.

Procurador pede investigação do Orçamento secreto, que liberou R$ 3 bilhões a governistas

Subprocurador-geral diz que as ilegalidades são flagrantes

Melissa Duarte
O Globo

O subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado solicitou ao Tribunal de Contas da União (TCU) que apure a reserva de R$ 3 bilhões do Orçamento de 2020 para deputados e senadores indicarem recursos para obras e ações Brasil afora com base em um “orçamento paralelo”. Em troca, deveriam apoiar o governo no Congresso Nacional. O caso foi divulgado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” neste domingo.

 “A situação requer, a meu ver, a atuação do Tribunal de Contas da União no cumprimento de suas competências constitucionais de controle externo de natureza contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da Administração Pública federal, a fim de que sejam apurados os atos do Poder Executivo que porventura venham — contrariando as regras isonômicas previstas para a aprovação e liberação de emendas parlamentares individuais — favorecendo determinados parlamentares, em retribuição a apoio aos projetos do governo”, argumentou o representante do Ministério Público (MP) junto ao TCU.

COMPRA DE MÁQUINAS – Parte dos recursos foram usados para a compra de tratores e outras máquinas agrícolas, como retroescavadeiras. Os equipamentos seriam entregues em cerimônias das prefeituras que acabariam se tornando eventos eleitorais. Só para esses equipamentos as despesas alcançariam R$ 271,8 milhões. Nos ofícios que indicam os gastos, os parlamentares se referem às verbas como “minha cota” e “fui contemplado”.

“Esses recursos ‘extras’ ocorreriam, em princípio, à margem de todo o regramento constitucional, legal e regulamentar, em ofensa ao princípio da isonomia que orienta a distribuição de recursos orçamentários entre os parlamentares no regime das emendas individuais e sem a transparência que requer o uso de recursos públicos”, escreveu Furtado.

FORA DA LEI – A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2020 não prevê que deputados e senadores definam prioridade de verbas de emendas para a execução do Orçamento. O presidente Jair Bolsonaro vetou essa possibilidade, que já havia recebido aval do Legislativo. Uma das razões é que o veto — não derrubado pelo Congresso Nacional — diz que a medida poderia “fomentar cunho personalístico” nas indicações.

A reportagem indica, ainda, que o esquema teria sido montado por Bolsonaro e os gastos, executados pelo Ministério de Desenvolvimento Regional, chefiado por Rogério Marinho. O ministro negou que a indicação de verbas fosse irregular e disse que deputados e senadores da oposição também foram contemplados.

— Temos denunciado desde nossa chegada ao Congresso este uso de emendas para comprar a base de parlamentares no Congresso. É um fluxo muito grande de recursos, e com pouquíssima transparência. Há sempre a possibilidade de desvios e toda suspeita tem que ser investigada — afirmou ao GLOBO o deputado federal Tiago Mitraud (Novo-MG), que classificou esses tipos de acordo como “imorais”.

Com Orçamento secreto de Bolsonaro, a Codevasf incha e se torna “a estatal do Centrão”

 Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba

Codevasf tem sede em vários Estados, inclusive o Amapá

Breno Pires
Estadão

O esquema do presidente Jair Bolsonaro para controlar o Congresso foi além da criação de um orçamento secreto de R$ 3 bilhões, como revelou o Estadão. Bolsonaro também expandiu e turbinou a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), estatal loteada pelo Centrão que vai aplicar cerca de um terço desses recursos por imposição dos políticos que a controlam.

Criada à época da ditadura para desenvolver as margens do Velho Chico, a Codevasf tem uma história marcada por corrupção e fisiologismo. Neste ano, conseguiu um orçamento recorde de R$ 2,73 bilhões, composto principalmente por emendas, mas o governo fez cortes.

MAIS MIL MUNICÍPIOS – Em campanha pela reeleição, ‘incluiu na área de atuação da empresa mil novos municípios, muitos deles localizados a mais de 1.500 quilômetros das águas do São Francisco. Na prática, o governo transformou a “estatal do Centrão” num duto de recursos para atender interesses eleitorais.

A empresa se tornou a preferida de deputados e senadores, principalmente do Centrão, pela capacidade de executar obras e entregar máquinas aos municípios e Estados mais rapidamente do que o governo. Motivo: sendo uma estatal, tem regras de contratação mais flexíveis do que um ministério.

Como mostrou o Estadão, boa parte dos recursos do orçamento secreto é destinada à compra de tratores e equipamentos agrícolas superfaturados, com valor acima da tabela de referência.

INDICAÇÕES EXPRESSAS – Documentos obtidos pelo jornal revelam que um grupo de aliados do governo determinou o que comprar, por quanto e indicou a Codevasf como o órgão que deveria fazer a operação, o que contraria leis orçamentárias.

A agilidade na “entrega” é essencial para o prestígio eleitoral dos parlamentares em suas bases. Se a transposição das águas do São Francisco ainda é um sonho para moradores da bacia hidrográfica do rio, a distribuição dos recursos da empresa já está sendo ampliada. A área original da Codevasf incluía apenas Alagoas, Bahia, um pedaço de Goiás e de Minas, Pernambuco e Sergipe – por onde correm o rio, seus afluentes e subafluentes –, além de Brasília, sede da companhia.

Por decisão de Bolsonaro, a Codevasf também atende agora o Amapá, reduto do senador Davi Alcolumbre (DEM); o Rio Grande do Norte, base do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho (sem partido), e a Paraíba, do deputado Wellington Roberto, líder do PL na Câmara.

EXPANSÃO ALUCINADA – Na sua criação, em 1974, a empresa atendia 504 municípios, o que representava 7,4% do território brasileiro. De 2000 para cá, apenas Dilma Rousseff não alterou a abrangência da estatal. Foi Bolsonaro, porém, que fez a maior ampliação da história da empresa. Desde que ele assumiu a Presidência, a área de atuação da Codevasf cresceu de 27,05% para 36,59% do território nacional. Chegou ao Sul da Bahia, passou a cobrir quase todo o Ceará, o litoral de Pernambuco, o Sul de Goiás e grandes trechos do Pará e de Minas, atingindo a divisa de São Paulo.

A empresa atende hoje 2.675 municípios em 15 Estados, além do Distrito Federal. A ampliação não tem freio. O Senado já aprovou proposta para a estatal atuar no Amazonas, em Roraima e no Sul de Minas. A companhia também passou a operar no clima equatorial úmido da floresta do Amapá.

ALCOLUMBRE DESPONTA – A sede da Codevasf em Macapá foi inaugurada no dia 16 de abril, com a presença de Davi Alcolumbre. Em uma empresa que não gera receitas próprias, o ex-presidente do Senado foi responsável por determinar o capital inicial de R$ 81 milhões para projetos no Amapá, com aval do Palácio do Planalto.

Enquanto isso, a diretoria executiva da estatal, composta por quatro indicados do Centrão, aprovava a criação de mais quatro Superintendências Regionais (SRs), além das oito já existentes. As novas SRs ficarão em Macapá, Goiânia, Palmas e Natal — as duas últimas, aliás, são as bases do líder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), e do ministro Rogério Marinho, que estuda concorrer ao governo do Rio Grande do Norte.

VOTAR COM O GOVERNO – O diretor-presidente da Codevasf é o engenheiro baiano Marcelo Moreira, ex-funcionário da Odebrecht, indicado em 2019 pelo deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), com respaldo do então ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, hoje chefe da Casa Civil. À época, Ramos disse à Coluna do Estadão que Elmar fez a indicação porque era líder do DEM, partido que votava “com o governo”.

O Progressistas, por sua vez, tem dois nomes na diretoria executiva da Codevasf. O primeiro é Luís Napoleão Casado Arnaud Neto, homem de confiança de Arthur Lira, e Davidson Tolentino de Almeida, ligado ao presidente do partido, senador Ciro Nogueira (PI). Outro diretor, Antônio Rosendo Neto Júnior, também tem um padrinho, o senador governista Roberto Rocha (sem partido-MA).

Procurada, a Codevasf disse que as “nomeações atendem as disposições legais e os normativos internos”. O Palácio do Planalto não se manifestou.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Com esse Orçamento secreto, o governo se comporta em ritmo de altíssima irresponsabilidade, comprando votos na maior desfaçatez, no estilo celebrizado por Lula. Só falta também fatiar a Petrobras. É desalentador. (C.N.)

Até agora, ninguém conseguiu provar que Trump e Bolsonaro erraram ao acusar a China pela Covid-19

Em carro escuro, profissionais de máscara em frente a fachada de tijolos

Na China a equipe da OMS teve dificuldades para estudar a origem do vírus

Marcelo Leite
Folha

Como quase todos os jornalistas de ciência, até aqui descartava como teoria conspiratória a ideia de a Covid ter surgido no Instituto de Virologia de Wuhan (IVW), cidade de origem da pandemia. Não mais, após ler reportagem do veterano Nicholas Wade no site Medium por sugestão de outra fera, Álvaro Pereira Júnior.

Não que Donald Trump ou Jair Bolsonaro estejam certos ao espalhar que o vírus Sars-CoV-2 foi fabricado por chineses para pôr o mundo de joelhos, longe disso. Mas ninguém provou tampouco que estivessem de todo errados; não se exclui que o corona possa ter escapado por acidente do IVW.

PRÓS E CONTRAS – Wade fez minuciosa reconstituição de prós e contras das duas explicações concorrentes sobre o aparecimento do vírus. A mais aceita aponta morcegos como repositório natural do patógeno, que teria saltado para humanos a partir de hospedeiro ainda não identificado (falou-se em pangolins, mas não há evidência disso).

A outra teoria indica que o Sars-CoV-2 teria infectado humanos a partir do laboratório da virologista Shi Zengli no IVW, possivelmente colaboradores seus. Nenhuma das hipóteses pode ser excluída, mas Wade —jornalista que cobre engenharia genética desde seus primórdios nos anos 1970— defende que as evidências favorecem a segunda.

Primeiro, algumas razões enfileiradas por ele contra a explicação de uma origem natural da zoonose. Não se localizou população alguma de morcegos com essa variedade particular de coronavírus, que aliás tem dificuldade para infectá-los, nem o animal intermediário.

DEMASIADA DISTÂNCIA –  Cavernas onde os quirópteros suspeitos abundam ficam a 1.500 km de Wuhan, e os bichos não voam mais que 50 km. Não há evidência biológica ou molecular de que o Sars-CoV-2 tenha sofrido mudanças características das adaptações esperadas num longo processo de transferência entre espécies.

Inexiste registro hospitalar de pneumonias atípicas nos arredores de onde há populações de morcegos e humanos em convívio estreito (não é o caso de Wuhan). Descobriram-se casos anteriores de Covid sem relação com o mercado apontado de início como ponto de origem na cidade.

Artigos de críticos da teoria conspiratória alegam que o novo coronavírus não carrega “cicatrizes” típicas de vírus construídos em laboratório. Wade contrapõe que há outras técnicas para modificar seus genomas, que não deixariam os rastros procurados pelos céticos.

ESTUDOS COM MORCEGOS – A virologista Shi Zengli se especializou em coletar morcegos e betacoronavírus nas cavernas e em manipular geneticamente o patógeno. Eram experimentos de “ganho de função”: modificar proteínas como a S (espícula) para aumentar a infecciosidade em células humanas, sob pretexto de adquirir conhecimento para identificar variedades silvestres com potencial pandêmico.

No outono, antes de reconhecido o surto de Covid em Wuhan, funcionários do IVW adoeceram com sintomas compatíveis com Covid e foram internados.

O governo chinês selou todos os registros e documentos do instituto e controlou os passos da comissão da OMS que investigava a origem do Sars-CoV-2, nada conclusiva.

ESCAPE LABORATORIAL – A reportagem enfileira detalhes técnicos complicados que sugerem um escape laboratorial. Coisas como sequências de “letras” (bases) genéticas típicas de seres humanos usadas nas experiências de ganho de função, inclusive por Shi —ironicamente, com financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH).

Assim, a leitura da investigação de Wade torna-se obrigatória. Sobretudo por quem, como eu, rechaçou uma origem artificial do novo coronavírus muito porque, vindo de Trump e Bolsonaro, só poderia ser mentira.

Ritmo de vacinação contra a Covid-19 no Brasil é mais que o dobro da média mundial

vacina

Ritmo da vacinação na média mundial é de apenas 3,8%¨já vacinados

José Carlos Werneck

A vacinação no Brasil, ao contrário do que alguns órgãos de comunicação vêm divulgando, não está “parada” ou segue “a passos lentos”. Os números desmentem isso, mostrando que essas informações errôneas são uma espécie de fake news. Segundo a plataforma independente de monitoramento vacinabrasil.org, o País aplicou ao menos uma dose em mais de 35 milhões de pessoas, ou 16,5% da população brasileira.

Isso equivale a mais que o dobro da média mundial de 8,11%, registrada no portal Our World in Data.

DUAS DOSES – Quando se fala em pessoas 100% vacinadas, são aquelas que já tomaram duas doses. O Brasil tem cerca de 18 milhões vacinados, ou 8,4%,  enquanto a média mundial é de 3,82%.

Se Brasil tem 8,4% da população imunizada, a rica Alemanha imunizou 8,78%, mesmo tendo começado a vacinar quase um mês antes.

A campanha no Brasil também segue ritmo melhor que a América do Sul, que tem média de só 6,25% da população completamente imunizada.

NO CAMINHO CERTO -Há cidades brasileiras já vacinando pessoas abaixo dos 60 anos mesmo que elas não tenham comorbidades.

Embora estejamos agora no caminho certo, a população não deve deixar de continuar cobrando a compra de mais vacinas, pois o País precisa, urgentemente, imunizar pessoas de todas as faixas etárias.

Não se pode esquecer que os jovens também correm sérios riscos, pois muitos deles, por razões diversas, não foram autorizados a continuar em “home office” e continuam expostos ao vírus.

FALTAM VACINAS – O mundo inteiro precisa de mais vacinas, não apenas o Brasil. E em muitos países estão faltando doses de imunizantes, o que, até agora, não tem acontecido aqui. Ao contrário, a média alcançada (que merece ter todo o destaque) é muito maior do que a da esmagadora maioria dos países, inclusive daqueles fabricantes de vacinas, como é o caso do Reino Unido.

Há duas projeções feitas por conhecidas e abalizadas instituições financeiras, o Credit Suisse e a XP Investimentos, que fizeram projeções (cada instituição promoveu a sua) sobre a vacinação no país. O resultado foi muito parecido: uma afirma que no final de setembro toda a população adulta brasileira (acima dos 18 anos) estará vacinada; a outra projeta este resultado para final de outubro.

São instituições que não têm qualquer vinculação com o Governo Federal.

Quebrar patente não é a solução mágica para distribuição de vacinas aos países mais pobres

Charge de Laerte (Folha)

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Vamos supor que a Organização Mundial da Saúde, com apoio dos países ricos e poderosos, decretasse hoje a quebra de todas as patentes de vacinas contra a Covid-19. O que aconteceria? Aumentaria a produção? A resposta é não.

No curto prazo, a carência de vacinas não tem nada a ver com patentes. Simplesmente, não há capacidade de produção na escala necessária para atender ao mundo. Faltam fábricas e insumos — o que não é surpreendente. Afinal, de um momento para outro, passou a existir uma demanda global de vacinas para a qual a economia global não estava preparada.

TIPOS DE VACINAS – De outro lado, e simplificando, há dois tipos de vacinas. Aquelas feitas com tecnologias conhecidas há tempos, como a CoronaVac, uma progressão em relação às vacinas contra a gripe. E há outras, de novíssima tecnologia, como aquela inventada pela alemã BioNTech, fabricada e distribuída pela Pfizer.

No caso das primeiras, já está ocorrendo uma abertura. O fabricante chinês transferiu tecnologia e licenciou o Butantan, antigo produtor de vacinas antigripais, para produzir aqui a CoronaVac. Do mesmo modo, o complexo Oxford/AstraZeneca se relacionou com a Fiocruz.

Portanto, a carência dessas vacinas por aqui não decorre das patentes, mas da falta de insumos e capacidade produtiva. E por que não temos isso? É o preço de anos sem investimentos públicos e sem estímulos ao investimento privado em tecnologias de ponta.

MANTER A PATENTE – Um dos problemas brasileiros é justamente a dificuldade de obter a patente — a proteção do direito intelectual — e mantê-la. A regra do jogo mundial na tecnologia de ponta é a proteção da invenção. Sem isso, não há investimento privado e os governos, como sabemos, são incapazes de substituí-lo.

Sim, há governos que apoiam as pesquisas científicas, mas os medicamentos e vacinas revolucionários são de autoria de companhias privadas.

Há dez anos, a vacina da BioNTech era apenas uma ideia de dois cientistas, donos de uma startup. Como parecia uma ideia boa, a pequena companhia recebeu seguidos aportes de capital privado e entregou a vacina no momento em que o mundo precisou.

HAVERÁ DESESTÍMULO – A BioNTech teve um excelente lucro no primeiro trimestre deste ano, que paga os investimentos feitos ao longo de anos. Se a patente for quebrada, isso lança um péssimo sinal para todo o setor farmacêutico. E não teremos vacinas tão boas e tão a tempo na próxima pandemia.

Além disso, se quebrada a patente das vacinas de alta tecnologia, também não acontece nada de imediato. Não existem laboratórios e pessoal capacitado para essa novidade. Ou seja, danem-se os pobres?

Vamos falar francamente: não é isso mesmo que está acontecendo? Dito de outro modo: é um imperativo moral que os governos e as instituições internacionais se movam para prover vacinas ao mundo todo.

JOGADA POLÍTICA – A resposta americana — suspensão provisória das patentes — parece mais uma jogada política interna e externa. Interna, porque com isso Joe Biden fala com a ala esquerda de seu Partido Democrata. E externa, para mostrar, digamos, solidariedade.

Mas vários líderes europeus, como Macron e Merkel, foram direto ao ponto: os EUA só fizeram isso depois de ter garantido doses para sua população, seguindo uma política que proíbe a exportação de vacinas e insumos.

Nesse caso, comportamento humanitário é o da União Europeia, que já exportou mais de 200 milhões de doses, mesmo não tendo garantido seu próprio abastecimento.

TRANSFERIR TECNOLOGIA – Exportar, bem entendido, não é apenas um gesto humanitário. Trata-se de uma pandemia, de modo que nenhum país estará inteiramente imune se os outros não estiverem.

Tudo considerado, é preciso, sim, uma ação concertada de governos para levar as detentoras de vacinas a licenciar o maior número possível de laboratórios, onde houver, e transferir tecnologia básica; e a negociar preços menores para os países mais pobres.  E também se deveria obrigar os países que têm sobra de vacinas a exportá-las ou a doá-las aos mais pobres.

Compra de tratores pelo Orçamento secreto de Bolsonaro tornou-se obsessão no Congresso

Motoniveladoras também são negociadas com a base parlamentar

Breno Pires
Estadão

A compra de máquinas pesadas virou uma obsessão do atual Congresso. No orçamento secreto de R$ 3 bilhões de recursos do Ministério de Desenvolvimento Regional que o governo terceirizou para deputados e senadores no final do ano passado, ao menos R$ 271,8 milhões foram para aquisição de tratores, retroescavadeiras e equipamentos agrícolas.

Os tratores foram os itens mais requisitados. As máquinas são destinadas a prefeituras para auxiliar nas obras em estradas nas áreas rurais e vias urbanas e nos projetos de cooperativas da agricultura familiar. Os parlamentares indicaram um gasto de R$ 15 milhões para a aquisição de 115 máquinas. Destas compras, apenas 12 estão previstas com preços dentro da tabela de referência do governo.

ESQUEMA DE MARINHO – O esquema montado pela equipe do presidente Jair Bolsonaro para se aproximar do Congresso jogou nas mãos de um grupo de deputados e senadores os recursos do ministério comandado por Rogério Marinho (sem partido-RN).

Destinados geralmente a prefeituras de redutos dos parlamentares, as máquinas e equipamentos saíram na maioria das vezes acima do preço de referência estabelecido pelo próprio ministério, em cartilha válida para 2021.

São dezenas de motoniveladoras, retroescavadeiras, carretas agrícolas, pás carregadeiras e caminhões, entre outros itens. Os autores das indicações são 37 deputados e cinco senadores. Entre eles, estão o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) e o ex-líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO).

SUPERFATURAMENTO – Dos recursos do “planilhão”, o Ministério do Desenvolvimento Regional liberou R$ 2,8 milhões para a compra de quatro motoniveladoras em convênios indicados por Vitor Hugo. Pela tabela do governo, o custo dessas quatro máquinas sairia por R$ 500 mil a menos.

Do total de gastos com compras de máquinas e equipamentos agrícolas que a reportagem conseguiu rastrear, 361 itens têm valores acima dos preços de referência do governo, considerando a tabela deste ano.

Não foi possível, porém, obter informações sobre uma boa parte das aquisições que serão feitas pelos órgãos vinculados ao ministério. A falta de detalhamento ocorreu especialmente nas compras da Companhia de Desenvolvimento do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs).

SALTO EM VALORES – Nos últimos dez anos, a ação orçamentária que inclui a compra de maquinários deu um salto em valores aplicados. O gasto passou de R$ 484 milhões em 2010 para R$ 4,5 bilhões em 2020, segundo ano de mandato de Bolsonaro. Pelo menos R$ 1 bilhão foi para a compra de equipamentos, incluindo tratores, no ano passado.

Dos R$ 132 milhões de compras de máquinas pesadas previstas no planilhão passíveis de análise, 81% do montante, isto é, R$ 107,1 milhões, foram para contratos identificados com preços acima da tabela do governo. O valor global é de R$ 23 milhões a mais do que se a compra respeitasse a tabela.

Parlamentares indicam preços e modelos de tratores para compra. O deputado Charles Fernandes (PSD-BA), por exemplo, chegou a indicar até o CNPJ e o telefone para contato de uma associação beneficente à qual queria destinar uma retroescavadeira no interior da Bahia. O parlamentar escreveu que o item deve ser comprado por R$ 300 mil, o que supera em R$ 50 mil o preço de referência.

LIRA DÁ UMA TACADA – Por sua vez, o presidente da Câmara, Arthur Lira, pôde direcionar R$ 30 milhões só para o Dnocs. Com esse valor, o órgão está adquirindo 44 tratores agrícolas a preços superiores aos R$ 100 mil previstos na cartilha do ministério. No total, os itens custarão R$ 1,6 milhão a mais do que a referência.

Os documentos demonstram que Lira ainda direcionou recursos para o governo de Mato Grosso (a 2.300 quilômetros em linha reta do seu reduto eleitoral) comprar seis carretas agrícolas, por preço total de R$ 138.060. Pela tabela do governo, as máquinas custariam R$ 60 mil. No total, Lira manejou R$ 114 milhões do orçamento secreto de Bolsonaro. No caso dos recursos do orçamento secreto, além do sobrepreço, parte dos convênios foi assinada pelo governo federal mesmo com pendências legais.

MOTONIVELADORAS – Máquina usada para nivelar terrenos, a motoniveladora foi um dos itens mais caros nas listas de compras indicadas por parlamentares. Com a “cota” do deputado Nelto (Podemos-GO) serão compradas quatro máquinas desse tipo por R$ 723 mil cada, quando o preço de referência é R$ 470 mil.

O plano de compra nessas condições está aprovado pela Sudeco. O Estadão localizou a aprovação para a compra da mesma máquina, no mesmo dia, por R$ 584 mil cada.

Fora do acordo para os políticos operarem o orçamento secreto, o Estadão encontrou vários registros de compras de tratores e máquinas agrícolas que seguem o preço de referência. Um convênio do Ministério do Desenvolvimento com o município de Nanuque (MG), por exemplo, registra a compra de uma motoniveladora no valor de R$ 462 mil, pouco menos que a referência, de R$ 470 mil.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
As denúncias estão apenas começando. Aguardem os próximos capítulos. (C.N.)

“Se a CPI da Covid provar que houve crime, Bolsonaro será responsabilizado”, afirma Renan

Relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL) em pronunciamento Foto: Jefferson Rudy / Jefferson Rudy/Agência Senado

Relator da CPI, Renan Calheiros diz que não há radicalismo na comissão

André de Souza
O Globo

O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), disse neste sábado esperar que o presidente Jair Bolsonaro não tenha responsabilidade sobre o agravamento da pandemia no país, que já matou mais de 420 mil pessoas. Por outro lado destacou que, se isso for provado, ele vai ser responsabilizado. A declaração foi dada em entrevista ao Grupo Prerrogativas, que reúne advogados.

Primeiramente, o senador citou algumas declarações de Bolsonaro que ele chamou de absurdos: “O que deve ser levado em conta é a maneira como o governo minimizou a pandemia, como o governo entendia que ela não era letal, não causa mortes, como o governo minimizou o papel da vacina, que é o único instrumento que pode resolver o problema, e como o governo fechou as portas para os produtores de vacinas. Não foi só para a Pfizer. Por quê? Porque o presidente disse várias vezes que não acreditava na vacina, muito menos na chinesa, que quem tomasse ia virar jacaré e afinar a voz”, disse Renan.

SITUAÇÃO ÚNICA — “Não dá para comparar, por tudo isso, a circunstância do Brasil com a de nenhum outro país. Em nenhum outro lugar, o chefe de Estado ou de governo falou publicamente esses absurdos para os seus governados, para a sua população. Então não dá. Só tivemos isso no Brasil. Eu espero que o presidente da República não tenha responsabilidade com o agravamento do morticínio no Brasil. Espero que a CPI não chegue a tanto. Mas se a CPI chegar, não tenho nenhuma dúvida que ele será responsabilizado sim”, salientou o relator.

E reforçou: “Ainda não temos como responsabilizar o presidente da República nem ninguém. Estamos começando os trabalhos. O nosso objetivo é fazer uma revisão nas politicas equivocadas para salvar vidas, e investigar o que aconteceu”.

CERTO OU ERRADO — “Há a percepção da sociedade de que, e o governo tivesse feito certo, e o governo tem na CPI uma oportunidade para mostrar que fez certo, certamente também não teríamos tido que conviver com esse morticínio todo, transformado o Brasil em cemitério do mundo “— acrescentou o relator da CPI.

Calheiros defendeu a convocação do ministro da Justiça, Anderson Torres, que, em entrevista à revista “Veja”, disse que vai requisitar à Polícia Federal (PF) informações sobre desvios de recursos federais enviados a estados e municípios. Por outro lado, disse ser contra convocar os filhos do presidente, até para não dar motivo para dizer que a CPI é uma iniciativa para atingir pessoalmente Bolsonaro.

Mas não deixou de criticar pai e filhos pelos ataques que desferem, muitas vezes sem provas, à China, país que fornece vacinas e outros insumos de saúde ao Brasil. Esta semana, por exemplo, o presidente insinuou que o coronavírus foi produzido pela China como parte de uma guerra química.

UM PONTO FINAL — “Precisamos pôr termo a essa irresponsabilidade” — disse o relator da CPI, que voltou a elogiar os depoimentos dados à CPI pelos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que reafirmaram discordar da forma como Bolsonaro conduziu o enfrentamento à pandemia. Quanto ao depoimento do atual ministro, Marcelo Queiroga, Renan disse que ele adotou uma estratégia de não falar a verdade.

— Tivemos um depoimento do atual ministro que não foi esclarecedor porque visivelmente ele defendeu uma estratégia de não responder as perguntas objetivamente e consequentemente não falar a verdade. Mas ainda reconheceu a existência do grupo paralelo [de assessoramento ao presidente], o constrangimento em algumas oportunidades de ser desautorizado pelo discurso negacionista do presidente da República — disse o relator da CPI.

PAZUELLO PODE FALTAR – Questionado sobre o que pode ocorrer caso o ex-ministro Eduardo Pazuello, que seguiu as orientações de Bolsonaro, falte à CPI. O senador lembrou que os investigados podem deixar de comparecer à sessão da CPI. Mas também afirmou que Pazuello vai ser ouvido como testemunha, sem citar medidas concretas para obrigá-lo a ir.

 Calheiros destacou, por exemplo, que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a possibilidade de fazer condução coercitiva. Pazuello falaria à CPI na última quarta-feira, mas alegou ter mantido contato com pessoas com Covid-19 para pedir um depoimento remoto, o que foi negado. A comissão remarcou a audiência dele para o dia 19 de maio.

Telegramas mostram que Ernesto mobilizou Itamaraty para garantir cloroquina, mesmo após alertas

Marcelo Camargo / Agência Brasil

Chanceler Ernesto Araújo colocou Itamaraty a serviço da cloroquina

Patrícia Campos Mello
Folha

O ex-chanceler Ernesto Araújo mobilizou o aparato diplomático do Brasil para garantir fornecimento de cloroquina ao país, mesmo após a Organização Mundial da Saúde ter interrompido testes clínicos com a droga e depois de associações médicas terem alertado para a ineficácia e o risco de efeitos colaterais.

Isso é o que revelam telegramas diplomáticos obtidos pela Folha e informações de pessoas envolvidas nas negociações. O ex-ministro, que pediu demissão no fim de março, será ouvido na CPI da Covid na próxima quinta (13), para explicar se houve prejuízo na aquisição de insumos e vacinas por causa da política externa de sua gestão.

POSSÍVEL CURA – A corrida do Itamaraty atrás da cloroquina começou pouco depois de o presidente Jair Bolsonaro falar em “possível cura para a doença” em suas redes sociais, em 21 de março do ano passado.

Hospital Albert Einstein e a possível cura dos pacientes com Covid-19. Agora há pouco os profissionais do hospital Albert Einstein me informaram que iniciaram um protocolo de pesquisa para avaliar a eficácia da cloroquina nos pacientes com Covid-19“, escreveu ele.

Um dia antes, a Prevent Senior e o hospital Albert Einstein haviam anunciado que tinham iniciado estudos com o medicamento. Em declaração durante reunião do G-20, em 26 de março, relatada em telegrama, Bolsonaro apontou para “testes bem-sucedidos, em hospitais brasileiros, com a utilização de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes infectados pela Covid-19, com a possibilidade de cooperação sobre a experiência brasileira”.

IMPORTAÇÃO DE INSUMOS – No mesmo dia, mesmo não existindo nenhum “teste bem-sucedido” em hospitais brasileiros, o ministério das Relações Exteriores pediu, em telegrama, que os diplomatas tentassem “sensibilizar o governo indiano para a urgência da liberação da exportação dos bens encomendados pelas empresas antes referidas [EMS, Eurofarma, Biolab e Apsen] e outras que se encontrem em igual condição, cujo desabastecimento no Brasil teria impactos muito negativos no sistema nacional de saúde”. Na época, o governo indiano havia restringido a exportação da cloroquina.

Em outra comunicação, no dia 15 de abril, o ministério pede que a embaixada na Índia faça gestões junto ao governo indiano para liberar uma carga de hidroxicloroquina comprada pela empresa Apsen antes de a exportação ser vetada por Déli e para que a venda da droga seja normalizada.

Durante todo o mês de abril, houve inúmeros pedidos do Itamaraty para obtenção de cloroquina —defendida por Bolsonaro como “cura” para a Covid-19.

PEDIDO DO ITAMARATY – Um dos telegramas, por exemplo, afirma que o Itamaraty teria pedido à Organização Pan-Americana de Saúde que entrasse em contato com o governo indiano para conseguir a liberação de um lote de milhões de doses de hidroxicloroquina.

Em outro, datado de 24 de abril, o ministério pede apoio para uma farmacêutica brasileira conseguir importar sulfato de hidroxicloroquina e relata que ela forneceria habitualmente para “FURP [Fundação para o Remédio Popular], Fiocruz, LAQFA [Laboratório Químico-Farmacêutico da Aeronáutica] e Laboratório do Exército”. Na comunicação, o ministério pede à embaixada que sejam feitas gestões junto ao governo indiano para liberar a carga.

APESAR DE TUDO… – Mesmo depois de a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira desaconselharem o uso da cloroquina contra a Covid e apontarem efeitos colaterais graves, em 19 de maio, o Itamaraty continuou acionando o corpo diplomático, em telegramas em junho, para garantir o fornecimento de hidroxicloroquina.

Já o empenho do Itamaraty para garantir vacinas e medicamentos da China foi muito menor do que o dedicado à cloroquina. Até novembro de 2020, o ministério não havia enviado instruções específicas para diplomatas prospectarem potenciais fornecedores de vacinas ou medicamentos na China, segundo pessoas envolvidas em negociações.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
Como dizem os evangélicos, a verdade dos libertará. E ela está chegando... (C.N.)

Orçamento secreto bilionário de Bolsonaro banca tratores superfaturados para a base aliada

Compra de trator vira obsessão no Congresso

Maioria dos tratores e máquinas está saindo com superfaturamento

Breno Pires
Estadão

Um esquema montado pelo presidente Jair Bolsonaro, no final do ano passado, para aumentar sua base de apoio no Congresso criou um orçamento paralelo de R$ 3 bilhões em emendas, boa parte delas destinada à compra de tratores e equipamentos agrícolas por preços até 259% acima dos valores de referência fixados pelo governo.

O flagrante do manejo sem controle de dinheiro público aparece num conjunto de 101 ofícios enviados por deputados e senadores ao Ministério do Desenvolvimento Regional e órgãos vinculados para indicar como eles preferiam usar os recursos.

VETO PRESIDENCIAL – O detalhe é que, oficialmente, o próprio Bolsonaro vetou a tentativa do Congresso de impor o destino de um novo tipo de emenda (chamada RP9), criado no seu governo, por “contrariar o interesse público” e estimular o “personalismo”. Foi exatamente isso o que ele passou a ignorar após seu casamento com o Centrão.

Os ofícios, obtidos pelo Estadão ao longo dos últimos três meses, mostram que esse esquema também atropela leis orçamentárias, pois são os ministros que deveriam definir onde aplicar os recursos.

Mais do que isso, dificulta o controle do Tribunal de Contas da União (TCU) e da sociedade. Os acordos para direcionar o dinheiro não são públicos, e a distribuição dos valores não é equânime entre os congressistas, atendendo a critérios eleitorais. Só ganha quem apoia o governo.

ALCOLUMBRE NA JOGADA – O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), por exemplo, determinou a aplicação de R$ 277 milhões de verbas públicas só do Ministério do Desenvolvimento Regional, assumindo a função do ministro Rogério Marinho. Ele precisaria de 34 anos no Senado para conseguir indicar esse montante por meio da tradicional emenda parlamentar individual, que garante a cada congressista direcionar livremente R$ 8 milhões ao ano.

Ex-presidente do Senado, Alcolumbre destinou R$ 81 milhões apenas à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a estatal que controla, ao lado de outros políticos.

Um caso emblemático é o do deputado Lúcio Mosquini (MDB-RO). O governo aceitou pagar R$ 359 mil num trator que, pelas regras normais, somente liberaria R$ 100 mil dos cofres públicos. No total, o deputado direcionou R$ 8 milhões.

CASOS ESQUISITOS – Há situações até em que parlamentares enviaram milhões para compra de máquinas agrícolas para uma cidade a cerca de dois mil quilômetros de seus redutos eleitorais. É o caso dos deputados do Solidariedade Ottaci Nascimento (RR) e Bosco Saraiva (AM). Eles direcionaram R$ 4 milhões para Padre Bernardo (GO). Se a tabela do governo fosse considerada, a compra sairia por R$ 2,8 milhões.

À reportagem, Saraiva disse que atendeu a um pedido de Nascimento, seu colega de partido. Por sua vez, Nascimento afirmou ter aceitado um pedido do líder da legenda na Câmara, Lucas Vergílio (GO).

Planilha secreta do governo obtida pelo Estadão revela que Alcolumbre também destinou R$ 10 milhões para obras e compras fora do seu Estado. Dois tratores vão para cidades no Paraná, a 2,6 mil quilômetros do Amapá. Sem questionar, o governo concordou em comprar as máquinas por R$ 500 mil, quando pelo preço de referência sairiam por R$ 200 mil.

OBRAS E COOPERATIVAS – As máquinas são destinadas a prefeituras para auxiliar nas obras em estradas nas áreas rurais e vias urbanas e também nos projetos de cooperativas da agricultura familiar. Os políticos costumam promover festas de entrega dos equipamentos, o que lhes garante encontros e fotos com potenciais eleitores em ano pré-eleitoral.

Ao serem entrevistados, deputados e senadores negavam o direcionamento dos recursos ou se recusavam a prestar informações. Confrontados com ofícios assinados por eles e a planilha do governo, acabaram por admitir seus atos.

‘FUI CONTEMPLADO’ – O deputado Vicentinho Junior (PL-TO) escreveu à Codevasf que havia sido “contemplado” com o valor de R$ 600 mil para compra de máquinas. “Dificilmente esse ofício foi redigido no meu gabinete, porque essa linguagem aí, tão coloquial, eu não uso”, disse.

Somente após o Estadão encaminhar o documento, Vicentinho Junior admitiu a autoria, mas minimizou a expressão “contemplado” ali utilizada. “Às vezes, uma colocação nesse sentido nada mais é do que ser simpático”, resumiu.

“Minha cota”, “fui contemplado” e “recursos a mim reservados” eram termos frequentes nos ofícios dos parlamentares. Foi dessa última forma que a deputada e atual ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL-DF), se dirigiu à Codevasf para definir o destino de R$ 5 milhões. “Não me lembro. Codevasf?”, perguntou ao Estadão.

MINISTRA DESCONHECE – Ao ler o documento, Flávia desconversou: “É tanta coisa que a gente faz que não sei exatamente do que se trata”. Nem tudo, porém, é registrado. O senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL) admitiu que “ditou” para o ministro Marinho onde R$ 7 milhões deveriam ser aplicados.

Na prática, a origem do novo esquema está no discurso de Bolsonaro de não distribuir cargos, sob o argumento de não lotear o primeiro escalão do governo. De um jeito ou de outro, a moeda de troca se deu por meio da transferência do controle de bilhões de reais do orçamento ao Congresso. Tudo a portas fechadas, longe do olhar dos eleitores.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
É uma série de denúncias sobre o Orçamento secreto. Esta reportagem é apenas a primeira. Daqui a pouco saí a segunda. (C.N.)
nota da

Bolsonaro complica Queiroga ao anunciar vídeo com ministros defendendo a cloroquina

Charge do Zé Dassilva (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Matérias publicadas neste domingo na Folha de São Paulo e no O Globo revelam que o presidente Jair Bolsonaro resolveu produzir um vídeo tendo ao seus lado os 22 ministros do governo defendendo o uso da cloroquina como medicamento eficaz para o combate à Covid-19.

Sério problema para o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, uma vez que ele enfrentará um dilema: ficar bem com o presidente ou ficar mal com a classe médica e científica. É evidente, como já a ciência chegou à conclusão, que a cloroquina nao tem eficácia alguma no combate ao coronavírus e, portanto, não pode ser usada contra a pandemia.

POSIÇÃO DIFÍCIL – O titular da Saúde talvez esteja nesse momento sentindo que não deveria continuar no governo porque certamente ficará numa posição muito ruim com os médicos e com as entidades médicas do país. Do país só não, talvez até ficasse mal com entidades médicas internacionais, a começar pela Organização Mundial de Saúde.

A matéria na Folha de São Paulo está assinada por Ricardo Della Coletta e no O Globo por André de Souza. O que pode salvar Marcelo Queiroga é o difícil, mas sempre possível, recuo de Bolsonaro.

ATAQUE – O presidente Jair Bolsonaro, acrescentam Ricardo Della Colleta e André de Souza, voltou a atacar a CPI dizendo que tornou-se um grande vexame, inclusive porque a Comissão Parlamentar de Inquérito não fala em cloroquina. Bolsonaro se enganou.

O tema cloroquina entrou várias vezes no depoimento de Queiroga que tentou se esquivar em uma tentativa criticada pelo presidente da CPI, Omar Aziz. Portanto, a cloroquina não deixou de ser colocada no palco do Senado Federal.  O tema, inclusive, encontra-se também no Tribunal de Contas da União que deseja saber qual o montante das verbas que foram destinadas à distribuição do remédio.

COMPRA DE TRATORES –  Reportagem de Bruno Pires, Estado de São Paulo de ontem, destaca que um esquema político a base de distribuição de verbas a deputados, no montante de R$ 3 bilhões, tem como destino a aquisição de tratores agrícolas para atender a realização de obras que indicadas através de emendas parlamentares.

Esses recursos foram usados para conseguir apoio aos candidatos governistas, e foram gastos em 101 ofícios, alguns deles com tratores e equipamentos agrícolas por preços até 259% mais caros que os valores fixados pelo governo.

MERCADO DE TRABALHO –  Na Folha de São Paulo, matéria de Nicola Pamplona e Leonardo Vieceli, focaliza o problema encontrado pelos jovens para ingressar no mercado de trabalho. A população brasileira, digo eu, cresce a velocidade de 1% ao ano: são assim 2 milhões de pessoas que passam de uma idade para outra e que precisam encontrar possibilidade de ingresso no mercado de trabalho.

Com a dificuldade está se criando uma figura nova no cenário nacional. Não se trata de desemprego, pois o jovem nao era empregado. Significa a existência de um processo de não-emprego, tão grave quanto os 14 milhões de desempregados existentes no Brasil.

Quando se fala em desenvolvimento econômico e social tem que se levar em conta o crescimento demográfico, como é usado para estabelecer a renda per capita de um país. Se o Produto Interno Bruto crescer 1% ao ano terá ocorrido uma estagnação no país. Para que tenhamos avanço é necessário que o PIB cresça mais do que 1%, no caso brasileiro.

SUCESSÃO DE 2022 – Reportagem de Joelmir Tavares e Carolina Linhares, Folha de São Paulo, focaliza as primeiras movimentações de candidatos em potencial para a sucessão de 2022. Dois nomes, claro, se destacam, o próprio presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula da Silva.

Porém, há esforço para que haja uma terceira força com possibilidade de chegar pelo menos ao segundo turno da votação. Mas essa busca encontra dificuldades, havendo poucos nomes capazes de arregimentar um bloco que não esteja nem com Lula e nem à direita de Bolsonaro. Mas nao está fácil.

João Doria dificilmente se afastará do governo para disputar eleições em condições difíceis. O nome de Tasso Jereissati surgiu na última semana como alternativa do PSDB. O nome de Luciano Huck nao foi cogitado pelos jornalistas da matéria. Ciro Gomes, vetado por Lula, tanto hoje quanto em 2018, na minha opinião não tem possibilidade alguma.

CONFRONTO IDEOLÓGICO – Também na Folha de São Paulo e exercício interessante da repórter Ana Estela de Sousa Pinto; ela aborda a base de um confronto ideológico citando o exemplo da França.

Na França, Emmanuel Macron disputará a reeleição em abril também de 2022. A posição solidificada da direita, com Marine Le Pen como candidata natural, está alcançando nas pesquisas uma fração de 25%. Para mim esse fenômeno eleitoral da direita, exceções confirmando a regra, estão contidas na faixa entre 20% a 25%, não devendo fugir dessa realidade. Foi o que aconteceu no segundo turno da última eleição presidencial francesa.

No Brasil, a mais recente pesquisa do Datafolha apontou 32% a favor de Jair Bolsonaro, mas o julgamento não era manifestação de voto e sim de consideração positiva do seu governo. Projetado para amanhã o panorama de hoje, Bolsonaro no caminho das  urnas vai percorrer uma faixa que acredito seja de 25%. O problema é saber se 25% serão capazes de levá-lo ao segundo turno. Acho que sim, terá ele a oportunidade de se confrontar com o ex-presidente Lula da Silva. As urnas vão decidir.

Vem aí a nova reforma tributária, cuja finalidade principal é explorar ainda mais o contribuinte

Charge do Duke (domtotal.com)

J.R.Guzzo
Estadão

Ninguém no Brasil está minimamente satisfeito, embora possa estar conformado, com os impostos que tem a pagar. Nem quem ganha salário, nem o consumidor, nem as empresas – que, aliás, mal conseguem se manter vivas e dentro da legalidade no regime de extorsão permanente por parte do Estado a que todos têm de se submeter. Quando o cidadão pensa no serviço miserável que recebe de volta, então, a coisa passa do péssimo para o mais péssimo.

Paga-se muito, paga-se errado, paga-se de forma frequentemente estúpida – e não se recebe nada que justifique os 150 dias de trabalho, em média, que o brasileiro tem de entregar a cada ano só para pagar imposto. Ou, então, o que se recebe é tão pouco, mas tão pouco, que fica difícil perceber a diferença.

EXPLORAÇÃO GERAL – Neste ano, até o começo do mês de maio, o Brasil já tinha pago mais de R$ 920 bilhões em impostos; o primeiro trilhão de 2021 (e olhe que nem se chegou à metade do ano) já está à vista – isso num momento em que a economia está andando a quase zero por hora, e pelo segundo ano em seguida, por causa da covid e das restrições que vieram com o “distanciamento social”.

É dinheiro, e o preço pago é alto demais para a população. Basta pensar um minuto: durante cinco meses inteirinhos você rala e não vê um tostão do dinheiro que ganhou. Vai tudo para o bolso do governo.

É melhor nem falar, a essa altura, no que o governo faz com a fortuna que toma a cada segundo da população – nem no tipo de coisas (e de gente) que o cidadão está pagando a cada vez que acende a luz de casa, fala no celular ou põe um litro de combustível no tanque.

QUEREM EXPLORAR MAIS – Considerando-se a calamidade que os impostos são hoje para o público pagante, talvez se pudesse esperar, pelo menos, que os que recebem aquela montanha toda de dinheiro estivessem satisfeitos. Mas não estão.

A União, os 27 Estados e os 5.500 municípios também estão infelizes; reclamam que é pouco, ou que deveriam estar recebendo uma parte maior que a parte dos outros, ou que o sistema não tem lógica, nem equilíbrio, nem justiça.

De qualquer forma, todos reclamam que não têm dinheiro para comprar um rolo de esparadrapo – e como é que vão fazer para dar aumento aos 12 milhões de funcionários públicos que estão na folha de pagamento?

ESCRAVIDÃO CONCRETA – Se o brasileiro vive hoje numa situação análoga à de escravo, trabalhando quase metade do seu tempo só para sustentar a Casa Grande que é a máquina pública, e se a Casa Grande também está infeliz, seria de se esperar que os responsáveis diretos pela catástrofe estivessem trabalhando para mudar alguma coisa. Não pensando no pagador de imposto, que a classe estatal quer mesmo manter em regime de escravidão – mas pensando neles próprios, os donos do Estado. Nada mais falso.

A reforma fiscal destinada a consertar uma parte do desastre está travada há dois anos no Congresso, e pelo andar da procissão vai continuar se arrastando.

Na verdade, há não apenas uma, mas duas reformas inteiras em andamento. Só que nenhuma das duas sai realmente do lugar.

ASSALTO AO CONTRIBUINTE -A Câmara tem propostas. O Senado tem propostas. O governo federal tem propostas. Os governos estaduais e municipais têm propostas. A “sociedade civil” tem propostas; enfim, só o pagador de imposto não tem proposta.

Mais: cada uma dessas tribos tem as suas brigas internas, cada grupinho ou grupão tem os seus interesses próprios, e todos estão atrás de algum proveito para si. Dá para ver o tamanho da confusão quando o único ponto que une os diversos lados é sua insistência em dizer que “a reforma não vai resolver tudo”.

Sempre que se começa a ouvir esse tipo de falatório, uma coisa é certa: ninguém está disposto a resolver nada.

“A Esperança não murcha, ela não cansa, e o mundo é uma ilusão completa”, dizia Augusto dos Anjos

O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.... Frase de Augusto dos Anjos.Paulo Peres
Poemas & Canções
O advogado, professor e poeta paraíbano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914), mostra neste soneto que “A Esperança” é a panaceia para todos os sentimentos e momentos da vida.

A ESPERANÇA
Augusto dos Anjos

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;o mundo é uma ilusão completa,
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro – avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

Será que algum dia o ex-juiz Moro perdoará o STF pelas indignidades feitas contra ele?

Ex-ministro da Justiça, Sergio Moro

O Brasil deve muito a Moro, mas a força da corrupção fala mais alto

Carlos Newton

É muito citado o pensamento de Tom Jobim, que dizia: “Viver no exterior é bom, mas é uma merda; morar no Brasil é uma merda, mas é bom”. Outra inspiração dele era dizer: “O Brasil gosta de quem fracassa e odeia quem é bem sucedido”. E dava os exemplosdo amado Garrincha e do odiado Pelé.

Essa percepção de Tom se confirma no caso do ex-juiz Sérgio Moro, que enfrentou com desassombro a corrupção política e empresarial do país, tornou-se o magistrado mais importante e homenageado do mundo, mas de repente hoje é desprezado pela maioria dos brasileiros, pois quase não se vê quem o apoie, seja na mídia ou nas redes sociais.

NEM FREUD EXPLICA – O comportamento da opinião pública merece estudo profundo por sociólogos, psicólogos e antropólogos. A omissão, a inércia e a falta de reação contra o verdadeiro complô que se armou contra o ex-juiz federal são inaceitáveis, inexplicáveis e inacreditáveis.

De repente, Moro passou a ser o bandido, enquanto Lula da Silva agora posa de mocinho, diz ser inocente, perseguido político e outras cositas más.     

Além da apatia da opinião, que considerou normais dois recentes julgamentos do Supremo –– um deles, descumprindo leis e regras processuais para anular os processos e condenações contra Lula, e o outro, também completamente fora da lei, para declarar a suspeição do então juiz Sérgio Moro. E ninguém reclama, ninguém diz nada, apenas a Tribuna da Internet mantém essa tocha acesa, para iluminar a crença de que deveriam existir juízes em Brasília. 

SUSPEIÇÕES A VALER – Nesse imbroglio jurídico de cunho político, não faltam suspeições. Mas não se aplicam ao juiz Moro, um servidor concursado e sempre de conduta exemplar na defesa do interesse público.

As suspeições que abundam, mas não prevalecem, se aplicam a Fachin, um procurador que fazia campanha para o PT no Paraná; a Dias Toffoli, ex-funcionário do PT; a Ricardo Lewandowski, amigo da família de Lula; e Gilmar Mendes, cuja mulher, Guiomar, era íntima de Marisa Letícia e as duas costumavam assistir a shows juntas em Brasília.

Na forma da lei, esses ministros são suspeitos e não poderiam julgar nada que beneficiasse Lula. Portanto, o julgamento que declarou a suspeição de Moro devia ser nulo de pleno direito, até porque ele nem teve direito de defesa, com 15 dias para se manifestar, anexar documentos e indicar testemunhas, segundo o Código de Processo Civil, art. 146, parágrafo 1º.

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P.S.  – Vamos voltar ao assunto, é claro, por ser inesgotável. E a Tribuna está correndo este páreo sozinha, porque a mídia quer a volta de Lula e da publicidade governamental, cortada por Bolsonaro. Todos sabem que Lula é muito generoso na distribuição de recursos públicos, não é verdade? (C.N.)

Militares preocupados com o destino de Pazuello, por achar que ele pode ser preso se ofender CPI

Charge do Adnael (chargeonline.com)

Deu na Coluna do Estadão

Importante general da reserva resume o sentimento dos militares em relação ao destino de Eduardo Pazuello: teme que o ex-ministro da Saúde seja preso, como uma espécie de “prêmio” aos senadores da CPI da Covid.

Esse mesmo general, ouvido reservadamente pela Coluna, não acredita que o Exército fará qualquer tentativa institucional de defender Pazuello, por mais injusta que possa ser a avaliação dos parlamentares.

O MOTIVO? – O raciocínio é de que Pazuello entrou no ministério como escolha pessoal do presidente Jair Bolsonaro e deixou o cargo da mesma forma.

Porém, entre oficiais de alta patente, a avaliação é de que as Forças Armadas já foram tragadas para o redemoinho da CPI com a convocação de Pazuello. Resta saber até que ponto os senadores terão força e disposição de puxar os fardados para o epicentro da crise.

À frente de uma das mais importantes “instituições” da sociedade civil, o advogado Felipe Santa Cruz corrobora essa impressão: “Em nenhum outro momento, desde a redemocratização, dano tão grande foi causado à imagem das Forças”, diz o presidente da OAB.

BRIGA NA JUSTIÇA – O desembargados Cícero Martins de Machado Filho, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, acatou, parcialmente, pedido do senador Jean Paul Prates (PT-RN) e determinou a suspensão de item em nota técnica da prefeitura de Natal que sugere a ivermectina como tratamento para a covid-19.

Assim, o prefeito Álvaro Dias (MDB) poderá continuar se pronunciando a respeito do remédio, se assim o desejar. A proibição “representaria odiosa censura à liberdade de expressão”, escreveu o juiz.

Em Brasília, os senadores Omar Aziz (PSD-AM), Renan Calheiros (MDB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP) não se desgrudam mais. Veteranos de outras CPIs observam que Aziz rapidinho pegou gosto pelas câmeras e holofotes na presidência da comissão, como temia Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É interessante notar que o tratamento da Covid-19 muda de um lugar para outro. A ivermectina, por exemplo, é prescrita em várias cidades do Rio de Janeiro, acompanhada de antibiótico azitromicina, de antialérgico e de antitérmico. Deveria haver um protocolo único a ser seguido pelos médicos na pandemia, mas ainda não existe isso. Dá para acreditar? (C.N.)

Na era Bolsonaro, a “República das Alagoas” está de volta dividida entre Renan e Arthur Lira

Renan e Lira se tornaram inimigos cordiais na disputa por Alagoas

Felipe Frazão e Vera Rosa
Estadão

A eleição do deputado Arthur Lira (Progressistas), líder do Centrão, para a presidência da Câmara e a escolha do senador Renan Calheiros (MDB) como relator da CPI da Covid devolveram protagonismo à “República de Alagoas” no cenário nacional. Mais do que isso, transportaram para Brasília uma rivalidade que domina o Estado nos últimos anos.

À frente do Progressistas, a família de Lira desafia a cada eleição o domínio do clã Calheiros num dos Estados mais desiguais do País, famoso pelos destinos turísticos, mas que tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) e sofre para se reerguer economicamente.

DE VOLTA AO PALCO – Desde o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), o presidente que renunciou para não sofrer impeachment, Alagoas não figurava com tanto destaque nesse jogo do poder com reflexos não só no Congresso como no Palácio do Planalto. A força dos clãs Lira e Calheiros e a projeção do deputado e do senador se explicam pelo controle da máquina partidária do Progressistas e do MDB no Estado.

Agora, o confronto também está exposto na CPI da Covid. Lira sempre discordou da abertura da comissão parlamentar de inquérito. Disse várias vezes que a investigação é inoportuna e serve mais à “briga política e ideológica”. Para o presidente da Câmara, a CPI não tem efeitos imediatos, interpretação oposta à de Renan, que vê o governo cada vez mais pressionado a agir.

Na lista das divergências, mais uma se destaca: Lira apoia o presidente Jair Bolsonaro enquanto Renan é aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

EM LADOS OPOSTOS – Bolsonaro e Lula prometem se enfrentar na disputa de 2022 ao Palácio do Planalto. Mas onde estarão os dois alagoanos que foram alvo de investigações da Lava Jato? “Desde 2014, tenho tentado fazer aliança com Arthur Lira. Ele que não quer. Eu sempre quis que a gente subisse junto no palanque”, disse o relator da CPI ao Estadão.

No 1º de Maio, um sábado, os dois demonstraram descontração num almoço oferecido pela senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO) a autoridades da República, em Brasília. A feijoada preparada por Moisés, marido de Kátia, animou o encontro e serviu para Renan se aproximar do antigo adversário.

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“Eu disse ao Arthur Lira que, no fundo, fiquei orgulhoso com a vitória dele. Torci pelo Baleia, mas a vitória do Lira é significativa. Foi a vitória da política”, afirmou Renan. “Sei o que é uma pessoa de Alagoas se tornar presidente da Câmara”, prosseguiu ele, que foi presidente do Senado por três períodos. Em fevereiro deste ano, o MDB de Renan ficou contra Lira e apoiou a candidatura de Baleia Rossi (SP). O deputado tinha o respaldo de Rodrigo Maia (DEM-RJ), que comandava a Câmara, mas perdeu a eleição no primeiro turno.

OUTROS PARTICIPANTES – Naquele Dia do Trabalho, o almoço na casa de Kátia reuniu também o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o procurador-geral da República, Augusto Aras, e os ministros do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas e Vital do Rêgo Filho, além do ex-presidente do TCU José Múcio Monteiro.

A conversa girou sobre CPI, economia, China e vacina, entre outros temas. Como não poderia deixar de ser, a sucessão de erros cometidos por Bolsonaro também se fez presente. “Falamos sobre tudo”, resumiu Renan. “Eles acham que eu sou terrorista, mas o Bin Laden lá é o Omar Aziz”, afirmou o senador, rindo, numa alusão ao presidente da CPI.

Questionado se Lira foi emissário de algum recado do Palácio do Planalto, o senador respondeu: Absolutamente, ninguém me pediu nada”. E o deputado, por sua vez, tem dito que Bolsonaro nunca lhe solicitou ajuda para a articulação política da CPI. “Não sou senador”, retruca ele, sempre que perguntado sobre o tema.

MAIS BRIGA EM 2022 – No xadrez político de Alagoas, o futuro dos grupos Lira e Calheiros vai se cruzar novamente em 2022. É que Renan Filho, já reeleito, terá de se licenciar do governo seis meses antes da eleição para disputar o Senado, como planeja. A ideia é que ele concorra à cadeira hoje ocupada por Fernando Collor (Pros), que flerta com Bolsonaro, mas é visto regionalmente como individualista.

Como o ex-vice-governador Luciano Barbosa (MDB) se elegeu prefeito de Arapiraca no ano passado, o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor (Solidariedade), é o primeiro na linha sucessória. O deputado estadual é aliado de Lira. Dessa forma, Renan entregaria a máquina pública do Estado, influente nos 102 municípios, ao grupo rival.

É por isso que interessa aos Calheiros uma aproximação com os Lira. “O Palácio do Planalto fará qualquer lance para tirar forças do Renan e do filho dele, inclusive cedendo mais apoio a Lira ou a quem quer que seja. Do ponto de vista nacional, o presidente da Câmara tem mais força e vai capitalizar isso para tentar conquistar o governo do Estado, mesmo sem ser ele o candidato”, argumentou o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas.

Na CPI, a tese da “imunidade de rebanho” pode se transformar numa arma contra Bolsonaro

Charge O TEMPO 01-09-2020

Charge do Duke (O Tempo)

Letícia Mori
BBC News Brasil

Uma das linhas de investigação dos senadores na CPI da Covid, que analisa a atuação do governo no combate à pandemia, é se Bolsonaro teria intencionalmente adotado a estratégia de tentar atingir ‘imunidade de rebanho’ sem vacinas.

A estratégia foi levantada como possibilidade no início da pandemia e consiste em tentar atingir imunidade de grupo — quando a maioria da população têm anticorpos contra o vírus — sem vacinas, através da contaminação do maior número possível de pessoas.

RESULTADO ATERRADOR – Em pouco tempo, no entanto, estudos mostraram que a consequência dessa estratégia eram milhares de mortes.

Embora o ministério da Saúde nunca tenha oficialmente adotado a estratégia de imunidade de rebanho sem vacinas, o presidente Jair Bolsonaro disse diversas vezes que a contaminação da maioria da população era inevitável e que “ajudaria a não proliferar” a doença.

Mais de um ano depois da chegada da pandemia no Brasil, o país tem o segundo maior número de mortes do mundo — mais de 410 mil, atrás apenas dos EUA.

TEVE A IMPRESSÃO – A linha de investigação sobre se o presidente intencionalmente escolheu essa estratégia e levou a um alto número de mortos se tornou central na CPI na terça, quando o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou em seu depoimento que “teve a impressão” de que foi exatamente isso que aconteceu.

“A impressão que eu tenho é que era alguma coisa nesse sentido [de buscar a imunidade de rebanho], o principal convencimento, mas eu não posso afirmar”, afirmou o ex-ministro, que também afirmou que Bolsonaro tinha outro aconselhamento sobre a pandemia que não vinha do ministério da saúde.

Mandetta disse que Bolsonaro foi alertado das consequências de não ouvir a ciência. O ex-ministro afirmou que o presidente inclusive foi informado da projeção de alto número de mortes caso as medidas com comprovação científica (como adotar o isolamento social e só promover tratamentos com eficácia comprovada) não fossem seguidas.

TESE MUITO FORTE – O senador Humberto Costa (PT-PE), membro da comissão, diz que a “essa tese é muito forte para explicar a conduta do Presidente da República.”

“Ele adotou a ideia de que a melhor maneira de enfrentar a pandemia era permitir o contágio mais amplo e mais rápido possível, na expectativa de que isso pudesse gerar uma imunidade natural”, diz Costa (PT-PE) à BBC News Brasil.

“Essas coisas acontecem com doenças virais que não são graves, mas não serve para uma doença como essa que produz não somente quadros clínicos graves como grande quantidade de sequelas até pra pessoas que tiveram casos leves”, afirma o senador, que também é ex-ministro da saúde.

TEICH NÃO CONFIRMA – Questionado sobre o assunto por Costa na CPI, o ex-ministro Nelson Teich disse que, ao menos enquanto era ministro, isso nunca foi discutido com ele e “nunca foi colocado como uma estratégia”.

Teich também afirmou que a ideia de criar imunidade de rebanho sem vacinas é um erro. “Essa tese de imunidade de rebanho, em que você adquire a imunidade através do contato, e não da vacina, isso é um erro. A imunidade você vai ter através da vacina, não através de pessoas sendo infectadas”, afirmou.

Apesar de Bolsonaro não ter falado sobre o assunto com o então ministro, o presidente fez discursos onde defendeu o isolamento social apenas de idosos e elogiou países e cidades que haviam adotado a estratégia da imunidade de rebanho sem vacinas na época.